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Welcome to Huaca*uckingChina!

E depois dos Andes, o deserto. A região de Ica, no Peru, é a zona desértica mais visitada do país. Os Andes são uma barreira tipo espinha-dorsal de quase toda a América do Sul. Do lado de lá, a floresta, do lado de cá (do oceano) o deserto. Basta ver uma imagem de satélite desta região para perceber quão nítida é esta divisão. Na zona de Ica praticamente não chove. Chove tão pouco que num dos hostels em que dormi na província nem se deu ao trabalho de construir um tecto inteiro no quarto. Era só meio-tecto, para entrar o “fresquinho”.

Quem visita Ica encaminha-se invariavelmente para o lugarejo de Huacachina, um oásis rodeado de dunas, composto basicamente por cinco ou seis restaurantes e alguns alojamentos. A terrinha (com pouco mais de 100 habitantes, todos eles ligados ao turismo) tinha o ar deprimente de um oásis que noutros tempos deve ter vivido momentos de fulgor, mas que agora estava a definhar. Os edifícios eram raquíticos, as ruas (se é que se podem chamar ruas) eram sujas, cinzentas e tinham pouca gente. Apesar disso, a imponência das dunas à volta do pequeno lago era digna de se apreciar.

Nós éramos quatro em Huacachina. Procurávamos o nosso hostel, chamado Il Vecchio, marcado à pressa uns dias antes. Nem o taxista nem as pessoas na rua conheciam o nome do hostel. Estranho para uma terra com pouco mais de duas dezenas de edifícios. Enquanto eu fiquei a comer qualquer coisa, dois os meus companheiros de viagem foram sondar por mais informações. A menina do café dizia que não conhecia o Il Vecchio, mas depois de lhe mostrar uma foto que estava na internet disse que sim, que conhecia, e encaminhou os meus amigos por um atalho suspeito. Olhei para o Lonely Planet. Nada do nosso alojamento.

Aproveitei para ler o que dizia o guia sobre este oásis. Lembro-me das frases: “roubos em hostels menos frequentados”, “violações”, “cuidado com o que vos dão de beber”, por aí fora. Boa. Olhei com mais atenção à minha volta. Um tipo que parecia um “expat” britânico fazia umas manobras no ar que se assemelhavam vagamente a yoga, nitidamente embriagado (ou pior…) enquanto balbuciava qualquer coisa para um amigo imaginário. Pelas ruas, outros solitários, no mínimo ébrios, deambulavam junto ao lago. Tudo parecia decadente. Parece que eu e os “oásis” não nos damos muito bem.

Os meus companheiros que andavam à procura do hostel nunca mais chegavam. Não tinha saldo no telemóvel. Perguntei à menina do café se sabia deles. “No”. Decidi ir à procura deles. Nada. Rico serviço. Voltei a falar com a empregada. Disse-me que o dono do hostel que estava à procura chamava-se Kike. Não tinha saldo mas tinha internet. Pesquisei pelo nome do fulano no telemóvel. Encontrei qualquer coisa como: “Tipo simpático mas parece ter alguns problemas com álcool e drogas”. Maravilha. Estava no oásis dos junkies, sem cama, sem saldo e sem saber de dois dos meus amigos.

Quando finalmente apareceram vinham na companhia de um “local”, com o sugestivo nome de “Mickey Mouse”. Pelos vistos era um dos mais influentes “distribuidores” do oásis. Era ele que nos ia levar ao misterioso (e na verdade inexistente) Il Vecchio. Afinal o hostel chamava-se Rocha, o apelido do señor Kike. Vá-se lá saber porquê o nome Il Vecchio era falso. Mostraram-nos as decrépitas instalações da residência, que se assemelhava a um ferro velho. O Kike apareceu. Confirmava-se: simpático, mas à primeira vista algo suspeito.

Os quartos eram sujos e espartanos, mas tinham algo que até agora ainda não tinha tido em nenhum outro quarto: televisão. Liguei-a e estava a dar o resumo do jogo do Benfica contra a Juventus. Uns minutos de futebol português no deserto peruano sabem sempre bem. Fez-nos esquecer por um momento as instalações pouco luxuosas onde estávamos. Depois o Kike convidou-nos para ir ao escritório/quarto/bar/sala do hostel ver o outro jogo da Liga Europa.

Ofereceu um pisco (aguardente) potente e de seguida foi beber umas cervejas ao bar junto à piscina. Decidimos fazer o mesmo. Cervejas à beira da piscina eram uma estreia nesta viagem. Mais relaxados – provavelmente por causa dos 5.2% de álcool das Cusqueñas -, esquecemos o aspecto de tudo aquilo e aceitámos o que o destino nos trouxe. Afinal, estávamos em Huaca*uckingChina!, como dizia o Mickey Mouse.

E o que se faz em Huacachina? Vai-se para as dunas fazer sandboarding e andar de buggies. O sandboarding (basicamente pôr-se em cima de uma prancha em pé, sentado ou deitado – conforme a aptidão de cada um – e deslizar pelas dunas abaixo) foi o aperitivo para as verdadeiras emoções na areia. Andar de buggie a alta velocidade pelas dunas parece uma montanha-russa. É entusiasmante mas perigoso. Os carros são feitos pelo próprio dono, os pilotos arriscam bastante das manobras e os acidentes são frequentes.

Talvez inebriados pelas cusqueñas, decidimos aceitar o convite do Kike para ser ele a conduzir o buggie. Munidos de óculos de sol, camera e alguma coragem deixámo-nos levar pela destreza (certamente favorecida por certas substâncias ilícitas) da sua experiente condução. Seguiram-se alguns gritos, emoções fortes e muita areia em todos os buracos da camera. A aventura terminou no topo de uma duna a ver o pôr-do-sol no deserto. A vista dali era portentosa. A manhã agitada deu lugar à contemplação. Lá do alto via-se todo o oásis. Um oásis que primeiro estranhei, mas que depois entranhei.

Afinal, estava em Huaca*uckingChina!