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Uma tarde em família

A cidade era Jodphur, no impressionante bairro azul junto ao forte. Eu e a minha amiga/companheira de viagem decidimos apenas deambular pelas labirínticas ruelas, pintadas de um azul mais fotogénico que qualquer um que tenha visto. Estranhamente vazio de turistas e até locais, o bairro era uma lufada de ar fresco depois de dias rodeados por multidões.

Quanto mais nos afastávamos do centro, mais autêntico era o ambiente de rua. Os miúdos fardados a caminho da escola pediam que lhes tirasse fotografias, ao invés do contrário, que é o mais habitual na relação turista ocidental/habitante fotogénico. Pegavam na camera para ver como tinha saído a foto, sem qualquer sinal de intenções duvidosas (sim, pegarem nela e desatarem a fugir) como muitos poderiam crer.

A simpatia e autenticidade dos indianos eram aqui por demais evidentes, confirmada em absoluto quando, já perto das muralhas do forte, uma menina mete conversa como só esta gente sabe meter: “São casados? Como não? Estão a gostar? De onde são? Onde fica isso? Como se chamam?”, a que se seguiu um “Moro nesta casa, querem conhecer a minha família?” A passar a segunda semana no país, não posso dizer que tenha sido propriamente surpreendente, mas não é algo que estejamos habituados a ouvir todos os dias. Algo relutante, a minha amiga lá concordou comigo em entrar. A casa era modesta como esperado, mas extremamente acolhedora.

Para onde quer que olhássemos só havia coisas que não vemos nas nossas casas, muitas “ganeshas”, “krishnas” e “hanumans”, mobiliário kitch ultra-colorido e posters dos actores da moda. A casa era como que um souk marroquino, com um pátio interior mas fechado, com balcões no primeiro piso, era claramente a casa de uma família numerosa. A menina apresentou a mãe, o irmão mais velho, o irmão mais novo, a irmã e a avó. Ofereceram-nos chá (o indiano, com leite e um pouco picante) e comida.

Olhavam para nós com uma cativante curiosidade, faziam perguntas, pediam para tirar fotos, queriam até ver o que tínhamos nas nossas malas. Não havia razão para recear e não mostrar, apesar de estarmos num beco desconhecido, numa cidade desconhecida, com gente desconhecida. Demos alguns objectos (inclusivamente um desodorizante e um creme para as mãos) e algumas moedas de euro, que não foram pedidas sobre pressão nem como que uma esmola. Eles, para além da comida, presentearam-nos ainda com pequenas “ganeshas” “para dar sorte”.

A menina decide pôr a tocar um vídeo com música indiana, só por si hilariante, e todos começam a dançar. Já sabia o que aí vinha… “Juntem-se a nós!”. Desajeitadamente lá demos uns passinhos de dança. Foi dos momentos mais divertidos daquelas semanas. Fomos ainda ao terraço ver a vista do bairro azul e do forte. Tirámos fotos, conversámos. Começava a chover.

Despedimos-nos por entre sorrisos, apertos de mãos e, novidade das novidades, beijos, que motivaram imensas risadinhas de admiração. Continuámos pelo bairro azul, de barriga e alma cheia. O meu sorriso cresceu ainda mais quando reparei que também o meu cartão de memória estava cheio de momentos inesquecíveis.



Comentários (1)

  1. Roberto Fantinel

    Sempre a melhor parte da viagem, as pessoas, belo texto. Triste é saber que perdemos a beleza do contato humano. Hoje isolados fisicamente e conectados virtualmente.

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