Melhor Blogue Open World 2017 (momondo) // Melhor Blogue de Fotografia de Viagens 2014, 2015 e 2016 (BTL Blogger Travel Awards)

Sonhos na Amazónia

Quando era novo queria ser detective, depois jornalista, mais tarde fotógrafo e depois “viajante profissional”. Nunca quis ser veterinário, mas sempre gostei da bicharada. Cheguei até a ponderar deixar de os comer, decisão que sempre adiei por esta ou aquela razão. Esta conjugação de gostos reflectia-se na minha vida e, a certa altura, condensou-se num sonho, um sonho alimentado por horas infindáveis a ver documentários.

Gostava de ter sido fotógrafo (ou cameraman) de vida selvagem. Vejo os documentários ou as fotografias da National Geographic e penso sempre “era isto mesmo”. O prazer que tenho em viajar, fotografar, procurar, esperar, observar e até de escrever, juntam-se ao fascínio que sempre tive pelo reino animal. Mas, convenhamos, esta é daquelas ocupações ao alcance de muito poucos. A técnica necessária, a realidade onde se vive, os sacrifícios que é preciso fazer (a diversos níveis) e, sobretudo, a dedicação e coragem que se exigem, não são para todos.

Quando vejo os obstáculos com que os fotógrafos de natureza se deparam, as localizações inóspitas, as condições meteorológicas extremas, a paciência santa, o viver com tão pouco, não deixo de pensar que sim, é aliciante, mas dificilmente ia ter estofo para aquilo. E depois vêm os voos em periclitantes avionetas, a subida a árvores do tamanho de sequóias, os acampamentos nos mais remotos sítios do planeta. Gosto de subir montanhas sim, mas não gosto de voar, prefiro estar com os pés bem assentes no chão. Talvez este meu receio seja uma metáfora para a irracionalidade deste sonho. Gostava de voar, mas prefiro manter os pés assentes no chão. São assim os sonhos.

Não será por acaso que a palavra “sonho” tem dois sentidos: o sonho como objectivo, como desejo, como utopia; e o sonho como o conjunto de imagens e sensações nocturnas que nascem no mais profundo do inconsciente. Os sonhos (ambos) são na sua maioria bastante tontos, sem estrutura definida, sem nexo. Sabemos que muito dificilmente passarão do inconsciente/desejo ao consciente/realidade.

Vem isto a propósito de quê? Como em tantos casos, também este sonho foi encarado como de tal maneira utópico que nunca me esforcei verdadeiramente. É verdade o jornalismo, a fotografia e as viagens têm feito parte da minha vida (o detective ficou definitivamente afastado por razões óbvias), mas a fotografia de natureza pouco ou nada. Como quem diz “gostava de ser astronauta”, também este é um sonho porreiro, mas em que pouco há a fazer, tal a dificuldade de o concretizar. Até porque se dissessem ao aspirante a astronauta: “Vamos realizar o teu sonho. Amanhã vais entrar numa nave e explorar o espaço”, o mais certo era o sonhador declinar imediatamente, apavorado pela vastidão do cosmos.

Também eu sou o aspirante a astronauta. Nunca fui para o terreno, nunca investi em material próprio, nunca estudei que passos tomar e nunca me esforcei realmente. Para quê esforçar quando sabemos que dá tanto trabalho ser “astronauta”, que só os melhores dos melhores, provavelmente bafejados com uma imensurável sorte de terem nascido no contexto certo, já preenchem os poucos lugares?

Mas vem isto a propósito de quê? Vem a propósito da viagem que fiz ao Peru este ano e que terminou (da melhor forma diga-se) no coração da Amazónia. Durante quase uma semana observei, estarrecido, a vida selvagem da floresta. Horas e horas, numa canoa, nos afluentes do rio Amazonas, a tentar pôr a vista em cima nos animais mais exóticos que iria ver (e provavelmente vou ver) na vida.

Qualquer turista tentará fotografar tal espectáculo, mas quase sempre em vão. As fotos das cameras compactas, e mesmo das reflex de entrada de gama, não cumprem, nem por sombras, os requisitos mínimos. Mais vale largar as cameras e viver a magia do momento. Mais vale esquecer as fotografias e apreciar. Uma camera profissional não serve de nada se não se tiver uma teleobjectiva decente. Uma camera decente com uma teleobjectiva profissional não servem de nada se não houver boa luz e bons acessórios. Por aí fora. Ali estava eu, num dos mais maravilhosos sítios do mundo, rodeado de vida selvagem, sabendo que muito provavelmente não mais voltaria na vida, sem poder guardar as memórias num registo fotográfico satisfatório. A minha “compacta profissional”, acabadinha de comprar, de nada servia.

Felizmente, os meus companheiros de viagem tinham uma reflex decente com uma teleobjectiva satisfatória. É certo que não consegui os resultados profissionais que o local e momento mereciam, mas cada uma destas fotografias representa um instante memorável numa das semanas mais memoráveis da minha vida, num paraíso verde neste “pequeno ponto azul na vasta arena cósmica que é a Terra”, como diria Carl Sagan. Pensei se deveria ou não publicar fotografias que não satisfazem o nível de qualidade que pretendia, se deveria divulgar um trabalho que não tem a técnica e luz exigíveis neste tipo de trabalho. Porém, um blog não serve só para criar portfolio e divulgar conteúdos “limpinhos”, serve também para dar a nossa perspectiva pessoal, seja em forma de texto ou de imagens.

Ficam 20 fotos que escolhi, sem preocupações de estética, composição ou resolução. Foram os dias em que mais ouvi o clique do obturador. Foram os dias em que, por momentos, me senti a viver aquele sonho. Eu era o “astronauta”, e a Amazónia o meu cosmos.