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O oásis era uma miragem

Prometiam-me terminar o dia num oásis. Não um típico oásis no meio de um deserto de dunas, mas um oásis no fundo de uma enorme ravina, numa paisagem árida e montanhosa. Tão montanhosa que para chegar a ele teria de fazer 20 quilómetros a descer por um “canyon”. E não uma canyon qualquer, mas sim a mais profunda garganta do mundo. Com mais de 3000 metros de profundidade – mais do dobro do que o Grand Canyon – o Colca Canyon está a 150 quilómetros de Arequipa, no Peru.

Eram duas e meia da manhã (não se faz…) quando acordei em Arequipa para apanhar a carrinha até ao Colca. A “van” ia a abarrotar e eu ia apertado ao fundo, sem poder abrir a janela e com a mochila de um mês ao colo. Dizer que a estrada era esburacada é pouco. Não só era esburacadíssima, como perigosa. Era o mais perigoso caminho que tive de passar num mês no Peru. As ravinas dos Andes eram já de si intimidantes, mas a condução era ainda mais. Ao meu lado, um alemão pedia para parar e vomitar. Não aguentou sequer até ao fim da viagem. Ficou pelo caminho. Naquela estrada de terra, e com um calor abrasador, só existiam duas opções: ou morrer de calor ou ficar com a poeira entranhada em todos os poros do corpo. Felizmente optaram pela segunda opção. Importante importante era o condutor não adormecer e os travões não falharem.

Não falharam. Como não falhou o encanto prometido da primeira paragem: o Miradouro Cruz del Condor. É deste ponto que se tem a melhor panorâmica para a gigantesca fenda. Era grandiosa sem dúvida, mas confesso que esperava um pouco mais, sobretudo quando me apercebo de que é o terceiro ponto turístico mais visitado do país. A vista é imponente, mas as verdadeiras estrelas são os condores dos Andes. A minha expectativa de vê-los era grande. É verdade que eram bem menos do que estava à espera, mas a imponência daquela envergadura de asas (chega a ser de três metros) é deslumbrante. O guia informou que tínhamos apenas 20 minutos para observá-los. Por mim tinha ficado a tarde toda.

Era tempo de deixar o conforto do turismo pára-fotografa-arranca da carrinha para passar à missão que me trouxe aqui: descer até ao fundo da garganta. Um tortuoso trilho de 20 quilómetros, desde Cabanaconde (3287 m) até ao “oásis” de Sangalle (2180 m). O oásis estava à vista. Não era uma miragem. Tinha a forma da América do Sul curiosamente. Conseguia ver onde ia dormir, conseguia ver a apetitosa piscina e conseguia ver as desejadas sombras das árvores.

O caminho foi árduo, muito árduo. Ao contrário do caminho inca, que era em altitude mas húmido e com grandes trilhos por floresta, este caminho era árido, seco, sem sombras, com piso à base de cascalho, com aldeias desertas e, sobretudo, exigente em termos de tempos a cumprir. Para além disso, os músculos ressentiam-se dos quatros dias a pé até ao Machu Picchu.

A única paragem digna desse nome foi numa aldeia isolada, sem acesso por estrada, onde almocei no alpendre de uma família e espreitei um jogo do Real Madrid (os peruanos adoram o futebol espanhol). O caminho era duro, mas pelo menos era a descer. Ia encurtar caminho e passar por uma aldeia. O tanas. A estrada estava cortada. Toca a dar a volta de dois quilómetros a subir e levar com pó na cara.

Depois de um dia inteiro de caminhada lá cheguei ao oásis. Era quase de noite. Piscina apetitosa? Nicles. Sombra das árvores? Nops, já não era precisa. Manjar dos deuses? Sopa de quinoa e as batatas com arroz do costume e vais com sorte. Pelo menos ia ter direito a uma cama decente num bungalow catita. Pois, pois. Era uma cabana de argila, sem electricidade, com uma cama imunda, debaixo de um telhado sem tecto, praticamente sem porta e, maravilha das maravilhas, dezenas de bichos rastejantes não identificáveis nas paredes e no chão. Fora os habituais mosquitos… Eu e o meu colega de quarto (o Pedro) decidimos ir à luta.

Dormir com aqueles bichos que tinham ar de gostar de sangue humano não fazia parte dos planos. Matá-los a todos também não. Eram demasiados e acabariam por vir sempre mais assistir ao funeral e vingarem-se. Munidos dos nossos sprays e roll-ons pejados de DEET afasta-tudo, aplicámos o repelente à volta das camas, da porta, das janelas e, claro, pelo corpo todo. Mais uma noite confortável no Peru portanto. O prometido oásis era um fiasco.

O belo soninho foi interrompido às sempre simpáticas quatro e meia da manhã. Tempo de uma revigorante caminhada nocturna pela montanha acima. Coisa pouca: um quilómetro a subir a pique pelo canyon. Os mil metros foram feitos numas reveladoras quatro horas. Depois de 40 quilómetros de caminhada pelos Andes numa semana, aquela subida soube mais a suplício. Os mais espertinhos subiam sem mochila em cima de uma mula. Por momentos olhei para os espertinhos e invejei-os, por momentos pensei que preferia antes ficar com as partes baixas assadas numa mula do que ficar todo dorido sem forças a meio do caminho. Afastei pensamentos derrotistas e cheguei ao topo.

Lá em cima estava uma bucha à minha espera. Até pudim havia. Deixei a classe económica e voltei à classe conforto. Voltei ao pára-fotografa-arranca em grande estilo: paragem no ponto mais alto da viagem (4910m), paragem no miradouro dos vulcões (chegavam aos 6000m), paragem na aldeia de Chivay e observação de vicuñas (espécie de lamas selvagens).

Ao final da tarde, enquanto todos dormiam, olhava fascinado o altiplano pela janela da carrinha. Viajávamos tão alto que um grupo de gansos selvagens – aves que migram pelo planeta a altíssima altitude – iam em formação mesmo ao lado da carrinha, à mesma velocidade. Era como estar lá no alto a voar com eles. Quis acordar os meus amigos, quis tirar a camera e fotografar, mas acabei por simplesmente apreciar o momento.

Não era um oásis, mas era quase. Finalmente.