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O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara

Louvado em dezenas de filmes, romances e livros de viagem, o Expresso do Oriente é certamente o mais famoso comboio do mundo. Tal como o Transsiberiano, o Expresso do Oriente fascina-me por ligar a Europa à Ásia, ou melhor, às portas da Ásia, em Istanbul. A ideia romântica de atravessar a Europa rumo ao Oriente num comboio luxuoso, com requintados jantares numa carruagem-restaurante e um quarto glamoroso só para mim, atraiu este viajante como atraiu milhares de outros no passado Também eu sonhara com aquela mítica jornada de três dias, longe do mundo, a contemplar da janela a passagem por alguns dos mais fascinantes países europeus, enquanto devorava alguns dos grandes clássicos da literatura.

Infelizmente, o Expresso do Oriente já não existe, pelo menos o verdadeiro Expresso do Oriente como um serviço regular de transporte de passageiros até Istanbul (terminou em 1977). O Expresso que ainda existe é um mero produto turístico para os endinheirados chamado Venice-Simplon Orient Express, que custa milhares de euros e faz somente o percurso Londres-Veneza. De Oriente já não tem nada.

O verdadeiro Expresso do Oriente já não existe, mas eu queria seguir-lhe as pisadas até Istanbul, nem que para isso tivesse de apanhar uma série de comboios em vez de apenas um. E assim fiz. No inverno de 2018 parti de comboio de Lisboa em direção a Budapeste e, a partir daí, apanhei vários comboios até chegar à antiga Constantinopla. Seria uma viagem muito mais lenta do a que viagem do antigo Expresso do Oriente, o que, na era da velocidade e fronteiras abertas, não deixa de ser surpreendente e, ao mesmo tempo, triste. Mas já lá vou.

Como o Transsiberiano e outros grandes comboios, o Expresso do Oriente conheceu vários itinerários na sua história. Por vezes iniciava-se em Londres, outras vezes em Paris, outras até em Estrasburgo. Em alguns períodos atravessava os Balcãs, noutros as grandes planícies romenas e húngaras, e noutros ainda os passageiros tinham de sair do comboio para apanhar um ferry entre Varna e Constantinopla, atravessando o Mar Negro.

A minha opção foi por um percurso muito semelhante ao original, o de 1883, ou seja, Budapeste-Bucareste-Giurgiu-Istanbul, mas, em vez de apanhar o ferry em Giurgiu, seguiria por via terrestre, atravessando a Bulgária e entrando na Turquia em Edirne. Este foi o itinerário feito pelo Expresso do Oriente a partir de 1889.

Desejava viver a experiência do Expresso do Oriente, mas vivemos outros tempos e o comboio direto sem mudanças de estação desapareceu. Terei de usar uma sucessão de comboios noturnos e serviços regionais, com controlos de passaporte em três fronteiras. Não espero as mordomias do Expresso original, sei-o antes mesmo de entrar no comboio. Farei um Expresso do Oriente diferente. De “expresso” já não terá nada, mas pelo menos vou na direção do Oriente. Venha daí o Meu Expresso do Oriente!

 

22.15, estação de Keleti (Budapeste): a primeira etapa do Meu Expresso do Oriente implica apanhar o comboio noturno entre Budapeste e Bucareste, mas como quero visitar a cidade romena de Sighișoara, no coração da Transilvânia, sairei antes, na estação de Sibiu, para trocar de comboio. A estação de Keleti, inaugurada em 1881, só tinha dois anos quando o primeiro Expresso do Oriente por lá passou. É um edifício velho e imponente, uma estação de comboios como todas deveriam ser, elegante, com pilares altíssimos, preservando o seu carisma e retendo o charme do passado.

Entrar na estação de Keleti é como viajar numa máquina do tempo. Graham Greene descreveu-a como um enorme echoing hall e ainda hoje assim é. Num dia gelado como aquele em que lá entrei, estar no seu interior é praticamente igual a estar lá fora. A estação é aberta e um vento gélido varre-a sem querer saber deste vosso turista do sul da Europa cheio de frio. Cheguei mais cedo para poder explorar a estação e, quem sabe, aquecer-me num agradável café enquanto espero pelo meu comboio. Nada disso, não só estava um frio de rachar como a estação não tem cafés, restaurantes ou outros espaços que estivessem abertos. Estava tudo fechado menos a habitual banca de gyros, sem sala interior ou cadeiras.

Sem opções, entretenho-me a tomar as notas para escrever este texto e ponho-me a controlar o painel de informações à espera de saber qual seria a linha do meu comboio. O meu comboio chama-se Dacia Express (o nome refere-se ao antigo território habitado pelos Dácios a que corresponde a atual Roménia), um serviço noturno que liga Viena a Bucareste em 25 horas. É o último do dia e parte às onze da noite.

Na estação, estão pouco mais de uma dezena de pessoas. Imagino que a maioria queira viajar não para Oriente como eu, mas para Ocidente, à procura de um inverno mais gentil. Pelo que via na estação, ninguém ou quase ninguém queria ir para a Roménia. Confirmei-o quando o Dacia entrou na linha 2. Era um comboio minúsculo, com apenas quatro carruagens, que rapidamente se esvaziaram. Budapeste era o destino final para quase todos os passageiros.

Junto-me aos poucos passageiros que querem seguir para a Roménia e entro no Dacia, contente pelo modo como aquela viagem me estava a afastar da realidade que já conheço, do conforto, como se ninguém quisesse ir para onde eu ia.

 

22.50: o funcionário do comboio arranca-me das mãos o meu bilhete, atira-me dois lençóis e uma fronha e leva-me para a minha couchette. Como o comboio está tão vazio, espero que tenha uma só para mim. Não durmo numa couchette há alguns anos. A última vez foi num comboio noturno entre Mumbai e Goa, num apertado compartimento com uma simpática família indiana.

Entro na minha couchette, que tem seis lugares em formato de beliche. A boa notícia é que o meu compartimento não está cheio, tem apenas um casal de romenos que já está meio a dormir. Só lhes vejo as caras. Ela tem um rosto muito maquilhado e um cabelo liso com pontas pintadas de roxo; ele uma cabeça robusta, olhar ameaçador, cabelo rapado, barba por fazer e um colar de metal que parece uma trela de um cão. A má notícia é que o compartimento é mais apertado do que desejaria, e todos os movimentos que faço implicam incomodar o casal, até porque o meu lugar é numa cama no topo do beliche.

O casal é antipático, não me dizem sequer um olá. Analisam todos os meus movimentos e, de cada vez que me mexo, quase toco neles. Não vim de calções, calças de pijama ou sequer de calças de fato de treino. Não sabia que teria de me despir perante dois olhares fulminantes. Se o fizesse iria fazer barulho e praticamente tocar no casal enquanto me despia. Já estou a imaginar a alegria do mal-encarado romeno ao ver-me tirar as calças de ganga e a ficar de pernas ao léu, a escassos centímetros da cara da namorada.

Resignado, subo para a cama vestido enquanto penso quão pior seria se fôssemos seis pessoas ali dentro em vez de três. Tenho calor, está escuro e tive de pôr os pés em cima da cama da romena para subir à minha cama. Sinto-me desconfortável. Naquele momento preferi a loucura do comboio indiano, que tinha menos espaço e privacidade, mas ao menos tinha sido recebido com sorrisos e curiosidade. Neste expresso noturno perdido na Europa do Leste não tenho mordomias. O único luxo que tenho é uma pequena lanterna no meu lugar e que me permite ler e escrever. Não há carruagem-bar, muito menos carruagem-restaurante. Tive mais conforto e privacidade na noite que passei num assento de passageiros no Lusitânia. E assim começa o Meu Expresso do Oriente.

 

23.10: Dacia sai da estação de Keleti rumo à Roménia. Rapidamente adormeço, embalado pelo ritmo do comboio ao entrar na grande planície húngara.

 

02.00: PASSPORT CONTROL! Acordo sobressaltado. Sabia que me iam acordar na fronteira, mas não de forma tão brusca. Dois oficiais húngaros entram pelo compartimento adentro sem baterem à porta, ligam as luzes e, sem dizerem mais uma palavra, verificam os passaportes. Usam uma máquina para validar os passaportes electrónicos. Não perguntam nada, nem revistam as bagagens, apenas estudam o meu rosto de olhos remelosos para confirmarem que sou o tipo que está na fotografia. Em silêncio, desligam as luzes e fecham a porta.

O sono demorou um bom bocado a voltar a aparecer. O comboio arranca lentamente rumo à Roménia. Quando estou quase a adormecer… PASSPORT CONTROL! Era um novo controlo de fronteira, uns quilómetros mais à frente, em Curtici, a primeira cidade romena. Os funcionários da alfândega, de uniformes castanhos, botas molhadas e caras carrancudas invadem o comboio, exigindo os passaportes. Uma oficial pede-me o passaporte. Arrisco um sorriso quando lho entrego. Primeiro recebo de volta uma expressão sisuda, mas depois de analisar o documento, a funcionária devolve-me o sorriso dizendo admirada; “ah… Portugaru!”.

Aquela demonstração de simpatia soube-me pela vida e minimizou o facto de ter sido acordado duas vezes, num período de uma uma hora, às duas da manhã, para verificação de passaportes. Não admira que o comboio siga quase vazio. Porque haveria alguém de preferir uma noite inteira neste desconforto e a ser acordado em vez de apanhar um avião durante breves horas? Será que os comboios noturnos já só são usados por idealistas românticos, amantes das longas viagens de comboio, munidos de um assinalável espírito de sacrifício? Ou por pessoas que moram nas pequenas cidades entre capitais, longe dos aeroportos, e por isso este tipo de serviço lhes serve? Uma coisa é certa: viajo num transporte em vias de extinção, em breve aniquilado por um elo mais forte difícil de vencer, o avião.

 

08.10: acordo com a luz do sol a entrar pela janela e a bater-me na cara. São oito da manhã, mas o relógio avançou uma hora ao entrar da Roménia, roubando-me mais uma hora de sono. O comboio está parado numa estação chamada Simeria. Vejo no mapa que, apesar de já ter feito 80% do percurso, ainda faltam três horas para Sibiu. É que estou prestes a entrar na Transilvânia, território mais montanhoso, por isso a demora a fazer os restantes 20%.

 

8.30: um manto branco cobre a planície, neve, muita neve, carros soterrados por ela, barracões velhos perdidos, estações de comboio que são meras plataformas de cimento despidas de gente, cães vadios, vagões carregados de carvão. O céu da manhã tem um azul ártico, luminoso, com algumas nuvens a flutuarem nele como algodão. As montanhas ao fundo, aproximam-se lentamente. O comboio começa a subir, lento e esforçado, como uma carroça a desafiar a montanha. Ramos cobertos de neve roçam nas janelas enquanto atravessamos florestas despidas. Depois, o vale e, finalmente, Sibiu, a antiga capital da Transilvânia.

 

10.45, Sibiu: antes de apanhar o comboio regional para Sighișoara, tenho uma hora e meia em Sibiu. Constato que o centro de Sibiu é próximo da estação e vou até lá. Assim que saio da estação quase caio, escorregando no passeio coberto de gelo e lama. Neste dia de janeiro em Sibiu tudo é gelo e lama. As pessoas andam com dificuldade nos passeios traiçoeiros e os carros têm dificuldade em percorrem as estradas lamacentas.

Decidido, avanço até ao centro. Sou definitivamente o único turista que por ali anda. Sinto todos os olhares virarem-se na minha direção. Este passeio pelas ruas lamacentas de Sibiu não é o passeio mais agradável do mundo mas sinto-me feliz por estar ali. Não vim à procura de encanto nem de ruas iguais às que percorro todos os dias, mas sim disto mesmo, de uma realidade oposta à minha, que me recompensasse o facto de ter percorrido uma longa distância de comboio. A lamacenta Sibiu foi essa recompensa e serviu-me para esticar as pernas antes de entrar em mais um comboio a caminho de uma das mais bonitas cidades da Transilvânia.

 

12.22: o regional para Sighișoara demorou quase três horas a fazer apenas 100 quilómetros e, durante aquelas horas, ansiei que demorasse mais. Desejava aquele ócio do viajante de longa distância, o lento passar do tempo num comboio tão vagaroso que por vezes andava mais devagar que a carroça puxada por cavalos que via pela janela. Naquele momento, não havia outro local onde desejasse estar mais do que aquele comboio lento e velho, que parava em todos os dezoito apeadeiros entre Sibiu e Sighișoara, a bisbilhotar a vida daquelas pessoas com rotinas tão diferentes da minha.

O comboio ia cheio. Uma senhora de casaco verde gasto e gorro vermelho vendia guloseimas aos passageiros. Neste comboio, como em Sibiu, senti-me observado como até aí não acontecera. Desde que saíra de Budapeste não tinha visto um turista e naquele comboio eu era, mais uma vez, seguramente o único. Olhavam para mim de alto a baixo, não de uma forma desagradável como os meus companheiros de viagem do Dacia Express, mas com uma curiosidade que não me perturbou. Metem conversa comigo, mas não falam inglês, por isso trocamos apenas sorrisos e acenos.

Sinto-me seguro e deixo a minha mochila no meu lugar para me ir sentar nos degraus de uma porta aberta para o exterior. Tinha saudades de um comboio onde pudesse abrir as janelas e portas à vontade para sentir o vento bater-me na cara. Passo uma boa meia-hora a admirar a paisagem da Transilvânia neste que foi o meu primeiro dia de sol da viagem. Que se dane a segurança dos comboios todos iguais, herméticos, sem alma. Todos os comboios deviam ser como o regional para Sighișoara. Aliás. todos os comboios deviam ter varandas. Aposto que o velho Expresso do Oriente tinha varandas.


O Meu Expresso do Oriente

Primeira parte (Lisboa-Istanbul)
1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul



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