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De comboio até Istanbul: o Lusitânia

O mundo é um livro, e aqueles que não viajam leem apenas a primeira página

Santo Agostinho

18.15, estação de comboios de Paço de Arcos
1. Final de tarde de uma sexta-feira de janeiro. Tal como fizera todos os dias úteis do último ano, apanho o comboio urbano para Lisboa. Mas hoje há uma diferença que me dá um entusiasmo extra: hoje não vou sair na estação de Alcântara, para depois apanhar o autocarro para o escritório; ao invés, seguirei para o Cais do Sodré, e imediatamente para Santa Apolónia, e depois mais além. O destino? Enquanto espreito pela janela e vejo, vindos na direção oposta, os comboios apinhados de gente que regressa do trabalho à hora de ponta, confesso que imaginei que alguém me perguntava: “Então vai sair em que estação? Caxias?”, a que eu responderia extasiado: “Não, hoje vou até mais longe, vou de comboio até à mais conhecida porta de entrada do Oriente: Istanbul. Conto chegar daqui a três semanas”.

2. A vontade de viajar o mais rapidamente possível aparece-me como uma força misteriosa e incontrolável, e tento satisfazê-la assim que consigo. No entanto, o meu desejo de partir é diretamente proporcional ao meu desejo de ficar em casa. Sentimentos aparentemente contraditórios, mas que têm uma base simples: gosto de viajar, mas também gosto, e muito, de estar em casa. Quando estou em casa sonho com a próxima viagem, desenho possíveis rotas em mapas e aponto a toda a hora locais que quero visitar; quando estou em viagem penso recorrentemente no conforto de casa e na saudosa rotina, que tem um efeito quase sedativo e que me acalma o espírito. Por isso, quando viajo, tento o melhor que consigo fazer da viagem casa, do desconforto  conforto e da ansiedade calma. Tendo isso em conta, delineei as premissas desta viagem antes de partir: não voarei, tentarei apenas usar o comboio, não irei com alojamentos marcados, viajarei sozinho e não terei data marcada para regressar. Esta liberdade de escolha é um bem cada vez mais escasso, um luxo entre viajantes, e por isso mesmo persigo-a há algum tempo. Esta será uma viagem comandada não pelas regras definidas, mas pela espontaneidade e decisões à última da hora. Todas as viagens deviam ser assim.

18.23, estação de Algés
1. Da janela do urbano penso como o nosso inverno é quase sempre ameno. Praticamente não choveu durante todo o outono e a temperatura é, pelo menos na região de Lisboa, suavizada pela proximidade do mar. O que me espera do outro lado da Europa?

2. Bruce Chatwin escreve sobre a mudança enquanto necessidade: “Precisamos dela como do ar que respiramos. Sem mudança, os nossos cérebros e corpos deterioram-se. O homem sentado num quarto com as persianas corridas arrisca-se a ficar doido, torturado por alucinações e introspecção.” Viajarei de comboio através de uma Europa Central que prevejo gélida exatamente para ver e sentir um clima substancialmente diferente do meu, um inverno vestido de branco, uma realidade díspar da que vivo todos os dias, uma mudança. O inverno que persigo representa essa procura da mudança, um antídoto contra uma rotina muitas vezes melancólica. Pamuk tem os passeios Bósforo para combater todas as enfermidades (do corpo e da alma); eu terei os rigores do inverno europeu como necessárias injeções de adrenalina. Chatwin chama à adrenalina o nosso “subsídio de viagem” e lembra como é importante usá-la para nosso proveito: “Todos temos adrenalina. Não podemos eliminá-la do nosso sistema e rezar para que se evapore. Privados do perigo, inventamos inimigos artificiais, doenças psicossomáticas, cobradores de impostos e, pior do que tudo, nós próprios, se ficarmos sós no quarto.” Enquanto vejo um nevoeiro cerrado esconder por completo a Ponte 25 de Abril, sinto-a, a adrenalina, a percorrer-me o corpo e agradeço-lhe por ser o melhor subsídio que já recebi na vida.

18.26, estação de Belém
1. Da janela reparo no trânsito compacto da marginal para sair de Lisboa e agradeço à sorte por poder usar o comboio diariamente em vez de conduzir um carro. Mesmo aqui, neste pequeno percurso, as vantagens do comboio em relação a outros meios de transporte são evidentes, mais ainda quando se tratam de viagens de longo curso. Uma das mais-valias mais relevantes do comboio é a possibilidade da leitura e da escrita. Nenhum meio de transporte é tão amigo do livro – para lê-los e até para escrevê-los. A (boa) literatura de viagem, que relata o caminho e não o destino, raramente, ou nunca, é sobre a viagem de avião X, ou a jornada de autocarro Y, ou o passeio de cruzeiro Z. Por sua vez, as viagens de comboio são o eixo central na narrativa de centenas de livros de viagem. Muitos dos best-sellers da literatura de viagem são precisamente sobre as experiências do viajante nos comboios. Basta pensar em Paul Theroux, por exemplo. Sigo rumo ao Oriente com a ilusão de ler e de escrever grande parte do tempo, e a verdade é que se confirmou que não só é possível (como provam estes apontamentos), como me foi até essencial para dar um sentido à viagem e até para combater eventuais excessos de introspeção (Chatwin dizia que “o movimento é a melhor cura para a melancolia”, eu acrescentaria, também como curas, a leitura e a escrita).

2. Outra das vantagens do comboio é a vertente da sociabilidade, da conversa, da história. As viagens de avião são todas iguais, as de comboios são todas diferentes. O viajante ferroviário é dado a mais conversa com os passageiros que partilham o mesmo espaço com ele. Tiziano Ternazi, que viajou durante um ano pela Ásia sem andar de avião, redescobriu o prazer da viagem em transportes mais “sociais”: “Viajar de comboio ou de barco ao longo de grandes distâncias devolveu-me o sentido da vastidão do mundo e, sobretudo, permitiu-me redescobrir uma parte da humanidade, a que constitui a maioria e cuja existência, de tanto voar, já quase esquecemos”. Talvez seja o ritmo mais lento, por ventura a menor sensação de claustrofobia ou o facto de não sermos obrigados a usar um cinto de segurança a maior parte do tempo, o facto é o comboio é mais propício à conversa, e virei a testemunhá-lo nas próximas semanas, sobretudo quando passar uma espécie de cortina de ferro, não a política de há décadas, mas a da indiferença e até desconfiança do lado ocidental da Europa.

3. E depois há a janela. Aquela através da qual vejo o trânsito parado da marginal. A janela de um comboio é uma abertura para o mundo, inspira à contemplação como a de nenhum outro meio de transporte. Num carro, tirando algumas exceções, veem-se principalmente aborrecidas bermas de autoestradas e estradas secundárias. Já o comboio atravessa áreas que mais nenhum tipo de transporte atravessa, sítios que não veríamos de outra forma se não fossem as linhas ferroviárias. Rasgam florestas, transpõem montanhas, cruzam desertos e deslizam por planícies infinitas. “O comboio, com os seus desafogos de tempo e os seus incómodos de espaço, provoca em nós uma curiosidade insólita pelos pormenores, aguça-nos a atenção para aquilo que nos rodeia, para aquilo que desliza no exterior da janela”, sugere Ternazi. Da janela observamos, de uma posição privilegiada, uma parte da vida das pessoas: a forma como saem dos comboios, o que vestem, como se despedem, como se abraçam no reencontro, até como trabalham e em que tipo de casas vivem. Da janela de um comboio vemos, verdadeiramente, a vida. Agatha Christie viajava de comboio para se inspirar na vida que via da janela para depois escrever os seus romances. Dizia: “Viajar de comboio é ver a Natureza e o Homem, vilas e igrejas e rios – na verdade, ver a vida.” 

18.29, estação de Alcântara
1. O comboio passa vagarosamente pela estação de Alcântara, a estação em que eu saía até há pouco tempo. Diariamente, quando descia do comboio, apressava o passo até à paragem de autocarros, numa urgência sem sentido, mesmo sabendo que ainda faltavam alguns minutos para o 712 chegar. Algum motivo desconhecido fazia-me correr para a paragem, na ânsia do autocarro poder sair mais cedo por alguma razão e perdê-lo. Subia as escadas ziguezagueando entre as pessoas, que pareciam todas inexplicavelmente lentas. Exasperado, vi-as como um estorvo e interrogava-me porque caminhavam tão devagar, para, passados uns segundos, me questionar porque andava eu tão rápido se depois tinha de estar parado à espera do autocarro.

2. Foi essa outra das razões por que decidi viajar de comboio até Istanbul, para abrandar o meu dia. Poder-se-á defender que é uma ideia contraproducente, que não tem sentido apanhar dezenas de comboios em poucas semanas e reclamar uma viagem tranquila, mas é o ritmo e velocidade com que o fazemos é que define a viagem, seja para Istanbul ou para Alcântara. “Abranda e irás mais longe do que alguma vez imaginaste”, lembra Satish Kumar. Quanto mais devagar viajamos mais vemos o mundo e o melhor exemplo disso é a caminhada, o pior, o avião. É por isso que prefiro os comboios lentos (os regionais, os antigos, os que serpenteiam montanhas…). De um TGV pouco se vê, de um velho comboio da Europa do Leste, sobretudo daqueles em que podemos abrir as janelas, o tempo passa mais devagar. Nesta jornada tentarei evitar os primeiros, e perseguirei sempre que consiga os segundos.

21.00, estação de Santa Apolónia
1. Agora sou eu o estorvo para a multidão apressada, uma Famel à frente de Mercedes e Audis furiosos de velocidade, um empecilho de mochila às costas em direção ao comboio noturno que me vai levar a Madrid, o Lusitânia Express. Faltam 25 minutos para o Lusitânia partir e sinto alguma inveja daqueles que, durante décadas, embarcaram neste comboio na estação do Rossio, um edifício bem mais condizente com grandes partidas , situada mesmo no centro de Lisboa, como se querem todas as estações ferroviárias. O verdadeiro e atual nome do Lusitânia Express é Lusitânia Comboio Hotel (em espanhol Tren Hotel Lusitania). O termo express foi usado a partir de 1943, mas caiu em 1995. E percebe-se porquê: de expresso não tem muito. Tendo em conta a curta distância entre Lisboa e Madrid, este serviço é demasiado lento, demorando 10 horas a fazer todo o percurso.

2. Já na estação, vejo imediatamente o Lusitânia. É o único comboio na parte central da estação. É semelhante a um intercidades, mas com a inscrição Renfe Tren Hotel a lilás a indicar que é uma composição espanhola. Procuro pela minha carruagem de segunda classe. Encontro-a. Afinal é da classe turística, e ao lado estão as carruagens da classe business. O politicamente correto já chegou aos comboios. O que é feito da primeira e da segunda classe? Quem decidiu que viajar numa composição categorizada como segunda classe é indigno ou desprezível e que é preferível aligeirar os nomes? Um turista não pode ir em primeira classe sem que vá fazer business a algum lado? E é suposto que todos os que viajam em turística sejam turistas?

21:20, Lusitânia Express
1. Entro no Lusitânia sem filas, sem esperas, sem mostrar documentos, sem revista de bagagens, sem tirar cintos nem sapatos, sem stress. A poucos quilómetros dali, dezenas de pessoas são revistadas após terem esperado, às vezes várias horas, para logo a seguir ficarem mais meia-hora fechados dentro de um assustador e gigantesco tubo metálico à espera de serem lançadas para as nuvens.

2. São muitos os grandes viajantes que receiam ou detestam voar. Theroux abomina viagens de avião (considera-as uma forma artificial de viagem), Bowles receava-os e Ternazi deu graças à premonição de um adivinho que lhe disse que iria morrer num para deixar de voar durante um ano. Este último admitia que o avião é um cómodo meio para encurtar distâncias, mas que “acabam por encurtar tudo, até a compreensão do mundo” e que o esforço deve fazer parte de uma viagem: “Sai-se de Roma ao pôr-do-sol, janta-se, dorme-se um bocado e, ao alvorecer, já estamos na Índia. Mas um país é também toda a diversidade que lhe é intrínseca, e uma pessoa deve ter tempo para se preparar para o encontro, deve fazer um esforço para depois saborear a conquista. Hoje em dia tornou-se tudo tão fácil que já nada nos dá prazer. Compreender qualquer coisa constitui uma satisfação, mas só se a isso estiver associado a um esforço. Com os países é a mesma coisa. Ler um guia enquanto se voa de um aeroporto ao outro não equivale à lenta e fatigosa aquisição – por esmose – dos humores da terra, a que, de comboio, nos afeiçoamos. Todos os lugares a que chegamos de avião, sem um mínimo de esforço de aproximação, se tornam semelhantes. São simples destinos, separados entre si apenas por algumas horas de voo.”

Sempre tive receio de voar e cada voo é para mim um sacrifício que tenho de suportar. Mas não hoje. Hoje parto sem receios para a outra ponta da Europa, numa jornada que me fará chegar ao destino final, Istanbul, chegando não de paraquedas, mas sim sentindo “os humores da terra” através do tal esforço da aproximação e com uma vontade imensa de saborear a conquista quando chegar à margem asiático do Bósforo.

3. Sento-me no lugar 6D. O banco é espaçoso e relativamente confortável, seguramente melhor do que um banco de uma companhia de aviação low-cost. Ao meu lado está um adolescente americano. Tem na cabeça um daqueles gorros à estrumpfe, com uma enorme folga na parte de trás, uma cara pálida e magra e é alto e esguio como um jogador de basquetebol. Agarra-se de imediato ao telemóvel, phones nas orelhas com urgência. Está impaciente, não parece querer estar ali, bufa constantemente de tédio e, para minha grande desgraça, abanará a perna de forma irritante durante quase toda a viagem. Começo a duvidar da minha escolha em viajar num comboio noturno num banco, em vez de numa cama numa camarata. O assento reclina-se, não muito, mas reclina-se, não o suficiente para uma noite confortável. Não há tomadas de eletricidade. Não me farão muita falta neste percurso, mas estranho que um comboio desta relevância não as tenha, e mais estranharei quando descobrir que até nos comboios regionais do Leste da Europa existirão tomadas junto aos assentos e neste não. Inspeciono o tabuleiro à minha frente e encontro um bilhete de alguém que viajou neste mesmo lugar no dia anterior. Veio de Bordéus para Lisboa, com passagem em Madrid. No tecto estão algumas televisões, mas estarão desligadas toda a viagem.

21.25, Lusitânia Express
1. O Lusitânia sai a horas e em poucos minutos faz a primeira paragem na Gare do Oriente. Quando já pensava que ia ter uma viagem relativamente tranquila, a minha carruagem enche-se completamente. Entram grupos de espanhóis, brasileiros, chineses. Português quase não se ouve. Se calhar estão todos no avião. Sinto a temperatura subir a pique. O americano fica ainda mais agitado, a perna numa azáfama, para cima e para baixo, para cima e para baixo, como uma rotativa de uma fábrica.

2. Vem aí o pica. Talvez queira despachar o assunto para poder ir para a cama ou então não quer acordar os passageiros durante a noite ao pedir-lhes os bilhetes. Mostro-lhe o meu. Custou-me apenas 7 € graças à combinação com o passe de InterRail que comprara uns dias antes. Em dois segundos está o assunto resolvido: não me pede identificação nem me carimba o passe como esperava. Daqui a três semanas, quando regressar de Istanbul, o meu passe terá apenas dois carimbos, quando era suposto ter dezenas, e nunca terei de mostrar a minha identificação para provar que sou o legítimo portador do passe. Que outro meio de transporte tem esta facilidade de uso? Viajarei durante semanas pela Europa sem qualquer burocracia ou complicação.

O americano mostra de forma displicente o seu bilhete ao pica e reparo que também tem um passe InterRail, mas em vez de pagar 7 € euros pela viagem pagou 61 €. Quem lho diz é o pica, com um ar paternal. O adolescente responde-lhe com desprezo e um ar entediado: “Ai sim? Não sei… Também não interessa porque foi a minha mãe que pagou”. Apercebo-me que a mãe está mais atrás na carruagem. Explico a situação ao americano e ele não faz caso. Aproveito para tentar meter conversa e pergunto-lhe para onde viaja. Diz-me apressadamente que vai para o sul de França e depois Itália, para logo de seguida colocar novamente os phones nos ouvidos, o gorro até às sobrancelhas e começar a abanar furiosamente a perna. Para primeira tentativa de conversa não está nada mau…

3. Reparo que a carruagem-bar é ao lado da minha e decido ir até lá. A visão romântica das velhas carruagens-restaurante dos grandes romances cai rapidamente por terra. Em vez de mesas postas com requinte, há apenas um balcão simplório e feio que range com os solavancos do comboio; em vez de um sofisticado menu com pratos elaborados, há um deprimente panfleto que mostra snacks (chocolates, batatas fritas de pacote e guloseimas embaladas) e pratos básicos como os habituais arroz de pato e bacalhau com natas; em vez de aprumados empregados de mesa, há dois funcionários façanhudos e com ar de não quererem estar ali (o que é compreensível); e em vez de uma sala cheia de passageiros encantadores em amena tertúlia enquanto ao fundo se ouve o som de um piano, estão apenas três homens de aspecto lúgubre junto ao balcão, em silêncio, a beberem cada um uma cerveja. Perco a fome, volto para o meu lugar, onde o americano já dorme, e depressa adormeço também.

9.00, Estação de Atocha, Madrid
1. Madrid recebe-me fria e chuvosa. Hoje a capital espanhola serve-me apenas como estação de passagem. Compro um bilhete para um comboio rápido para Girona, que parte dentro de quatro minutos. Acho apertado mas a empregada de bilheteira garante-me que chego a tempo. Esqueceu-se foi de me avisar que tanto eu como a minha bagagem teriam de passar por sensores de metais iguais aos dos aeroportos. Não contava com esta. Numa estação de comboios? Subitamente, lembro-me que tenho um canivete algures na mochila. Quando a preparei não imaginei que teria de passar por detetores de metais. Mas onde pus o canivete? Se quero apanhar o comboio não tenho tempo para procurá-lo. Decido arriscar e avanço. A mochila passa sem qualquer problema. Fico aliviado por não ter de perder tempo a mentir e dizer que me esqueci que o trazia, e fico surpreendido por perceber que o controlo é tão pouco apertado tendo em conta o aparato montado.

2. Faltam dois minutos para o comboio sair, mas afinal ainda tenho de passar por mais um controlo. Avanço apressado e entrego o meu bilhete a uma senhora sorridente de uniforme imaculado, que me diz com toda a naturalidade que a porta fecha dois minutos antes de o comboio sair e que por isso não vou conseguir embarcar. Como?! Mas o comboio está mesmo à minha frente, consigo vê-lo! Perante a intransigência da funcionária, e perdido o comboio, dirigo-me à bilheteira para exigir um novo bilhete. Dizem-me que tenho de comprar um novo. Protesto. Acabam por ceder. Dão-me um novo bilhete, mas terei de esperar seis horas pelo próximo comboio.

3. Nas estações de comboio espanholas é mais arriscado confiar numa funcionária de bilheteira do que passar com um canivete num detetor de metais.

16.30, região de Castilla La Mancha
1. Atravesso Espanha num comboio AVE, semelhante a um TGV,  como uma flecha, a 300 km/h. Pelo menos é o que indica o painel electrónico da minha carruagem. O painel diz também que estão quatro graus lá fora. A julgar pelo nevão que vejo cair parece estar mais frio ainda. Os campos estão pintados de branco, despidos de árvores ou de qualquer tipo de vegetação, fazendo-me lembrar um imenso lago de sal. Os restantes passageiros, a maioria espanhóis, também olham curiosos pela janela. Dos campos emerge agora um nevoeiro cerrado, não se vê um palmo à frente. A flecha segue disparada entre as nuvens a 300 km/h e os meus ouvidos entopem. Viajo num comboio ou num avião?

2. Perco-me nestes pensamentos enquanto olho pela janela. Mais um motivo por que gosto tanto de viajar de comboio: a tendência que tenho para me perder dentro da minha própria mente, uma das poucas alturas em que tenho horas a fio para simplesmente não fazer nada, apenas deixar-me levar para o que o meu inconsciente deseja pensar e não para o que eu quero ou preciso pensar. Alain de Botton considera esta tendência para a introspeção uma parte essencial da arte de viajar: “De todos os meios de transportes, talvez seja o comboio o que melhor e mais auxilia o pensamento: a vista que nos oferece é isenta dessa monotonia potencial que caracteriza as viagens de barco ou de avião; move-se com uma rapidez suficiente para a impedir de se tornar exasperante, mas também com uma lentidão suficiente para nos permitir que reconheçamos os seus objetos.”

3. Durante estas horas de ociosidade distingo poucos objetos pela janela do comboio, por isso aproveito para dormir aquela hora que me foi roubada na noite anterior pela falta de posição no banco do Lusitânia.

19.10, Girona
1. Chego a Girona à hora prevista. Reparo como o facto de ter feito Madrid-Girona, sensivelmente a mesma distância que a ligação Lisboa-Madrid, em apenas três horas e meia, em vez das dez horas que demorou a primeira viagem, é sintomático do nível de atraso que a nossa linha ferroviária tem em relação ao resto da Europa.

2. Pago por uma cama num dormitório para quatro pessoas, mas sou o único hóspede. Um quarto pelo preço de uma cama, bom negócio, uma vantagem de ter decidido viajar em plena época baixa. A desvantagem surge de imediato: tomo um duche de água gelada e não tenho ninguém na receção com quem protestar. Resignado e cansado, adormeço rapidamente. Dentro de horas retomarei a direção do Oriente. Próxima paragem: Génova.



Comentários (2)

  1. OLIRAF

    Gabriel,

    Adorei o teu texto. Como sempre. Infelizmente, em Portugal apostamos mais na rodovia do que na ferrovia. Eu adoro viajar de Comboio. Sempre que tenho tempo, viajo de comboio. E tenho pena de haver poucas (ou quase nenhumas) a Espanha.
    Recomendo-te o seguinte programa sobre viagens de comboios na RTP2. https://www.rtp.pt/programa/tv/p35994/e2

    Se for o caso, votos de Boas Viagens!

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