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O Caminho Inca

O Caminho Inca é talvez o caminho pedestre mais conhecido de toda a América. Atravessando as montanhas dos Andes, há trilhos de um dia e há trilhos de semanas. Optei pela versão “clássica” de quatro dias, a mais comum. Foram 37 quilómetros por algumas das mais cénicas vistas que os meus olhos já testemunharam.

O governo limitou, e bem, o número de pessoas que fazem o caminho a cerca de 500 por dia, o que implica contratar guia e “porters” (os pobres coitados que carregam as mochilas, tendas, comida e até bilhas de gás às costas) com meses de antecedência. Como fui na época baixa marquei com “apenas” três meses de antecedência.

Para além do óbvio desafio que é fazer 37 quilómetros a pé em caminhos serpenteantes, género montanha-russa, o principal problema é mesmo a altitude, sempre acima dos 3300 metros e com uma “escalada” até aos 4200. O recomendado é estar 2/3 dias em Cusco, a capital inca, para nos habituarmos à falta de oxigénio, que chega a ser menos 40% em relação ao nível do mar. Não há, no entanto, dias de habituação que valham quando estamos com uma mochila de oito quilos às costas, a trepar a mais de quatro mil metros.

Cada degrau é um desafio, apenas atenuado se a preparação física for suficiente. Bolhas, pés torcidos, falta de ar e dores musculares tornaram-se palavras no reportório do grupo. Felizmente, os incansáveis “porters” tinham sempre uma boa refeição à nossa espera, assim como uma tenda já montada para uma noite de descanso que, invariavelmente, terminava às 3 ou 4 da manhã para retomar a caminhada.

Apressados, ainda com as remelas nos olhos, com pasta de dentes salpicada na cara porque o tubo “explodia” com a pressão da altitude, sujos após três dias sem tomar banho, doridos, era o despertar na montanha. Mas a meteorologia foi amiga e “a cenoura” – como chamávamos ao Machu Picchu, esperava por nós e servia de motivação para chegar ao fim da aventura. A paisagem mudava a cada dia.

Começava na baixa floresta, depois a alta floresta, depois a tundra de montanha. Várias ruínas de antigas cidades incas surgiam do nada, servindo de aperitivos para o prato principal que ia ser servido no final do trilho. Só existem duas formas de chegar ao Machu Picchu. Ou num (caro) comboio turístico, ou a pé.

O Caminho Inca é, claro está, a melhor opção, desde que haja dias suficientes para isso. No meu caso houve, até porque cada vez mais prefiro o “slow travel”. Aqueles quatro dias desenvolveram ainda mais essa preferência. O único senão foi também desenvolver dores musculares para os quatro dias seguintes…