Vencedor do 1º Prémio dos Open World Awards 2017 da momondo // Vencedor do prémio Blogue de Fotografia de Viagens 2014, 2015 e 2016 da BTL Blogger Travel Awards

Deixa-te maravilhar

Regresso de Marrocos feliz por ter retomado as leituras atrasadas. Lemos todos dias, a toda a hora, mas de forma diagonal, consumista, permanentemente distraídos. As férias são o nosso último reduto para leituras de corpo e alma, com tempo, sem o monstro digital a espreitar permanentemente, pronto a roubar-nos a atenção.

A minha leitura mais atenta foi a “A Vida no Campo”, de Joel Neto, que contém este parágrafo que acho sublime. É sobre viagens, exteriores mas sobretudo interiores; sobre a nossa terra e a terra dos outros; sobre preconceitos e certezas; sobre a perplexidade e o deixarmo-nos maravilhar. Não sendo um texto especificamente sobre viagens, transcrevo-o aqui porque me identifiquei nele enquanto estive em Marrocos, onde me deixei maravilhar pelo diferente e de onde vi com menos certezas. Cada vez tenho menos certezas. E isso é bom.

“Conserva um pé dentro e outro fora. Deixa-te fascinar pelas identidades e pelas tradições – pelas histórias que contam, pela História de que são mensageiras.

Aprende a ser visitante na tua terra como a fazer-te de casa em terra alheia. Cultiva o choque e o contraste, os cambiantes e as camadas. Mas não abandones o teu lugar – não te deixes puxar para baixo até um ponto que te embruteça nem suficientemente para cima até teres de representar um papel.

Enquanto puderes, ignora os arquétipos e aquilo que julgas esperarem de ti. Rejeita as unanimidades, as ideias definitivas, as equipas. E, quando te achares absorto de indignação, procura descer um grau para a perplexidades. A perplexidade é o gesto mais negligenciado deste tempo. Não construas sistemas filosóficos em torno da tua perplexidade. Aprende a surpreender-te. Aprende a amar a perplexidade. Não procures pertencer ao que não pertences. Não te envergonhes daquilo a que já pertenceste. Arrepende-te e tenta de novo.

Soma hipóteses, em vez de as excluíres. Deixa-te maravilhar com a simples possibilidade. E – muito importante –  proíbe-te de gostar e não gostar. Não elimines porque não gostas nem chames os acrobatas porque gostas. É o grau zero do pensamento, este nosso gostar e não gostar de hoje. Deixa-te impressionar por aquilo de que não gostas – encantador será poderes começar a gostar disso também.

Não sejas cínico: sê múltiplo. Aprende a povoar-te. Evita os absolutos. Ama o que puderes”



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