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Crónicas Japonesas: como ser feliz num cemitério

Depois de uma semana nas grandes cidades de Tokyo e Kyoto, a segunda parte desta viagem ao Japão foi planeada para ser o mais tranquila possível, longe das multidões e do frenesim urbano. Depois de muita pesquisa, e tendo em conta o (pouco) tempo disponível, decidi explorar a península de Kii, no sul da região de Kansai.

A primeira paragem foi uma vila que, até há bem pouco tempo, era praticamente desconhecida no circuito turístico: Koyasan. No cimo de uma montanha, o acesso faz-se primeiro por comboio, depois por um funicular (alerta vertigens!) e finalmente por autocarro.

Koyasan é um local de peregrinação budista, mais especificamente do budismo shigon e nas últimas décadas tem sido descoberta por cada vez mais estrangeiros. A maioria vem à procura de uma experiência apenas: o shukubo – dormir num templo budista, geralmente em futons dispostos num chão de tatami; comer refeições vegetarianas inspiradas na dieta dos monges; e ainda assistir às orações budistas logo nas primeiras horas da manhã.

Esta tendência crescente abriu as portas de mais de 50 templos em Koyasan, agora transformados em autênticos alojamentos turísticos. Desta experiência não guardei especial memória, talvez por ter optado por uma versão mais barata (os templos “a sério” são bastante caros).

Koyasan num dia cinzento e chuvoso como apanhei não é especialmente bonita, mas há um local extraordinário que compensou, e de que maneira, a desilusão que senti no centro da vila. Chama-se Okunoin e é o cemitério mais fascinante que já visitei, mas primeiro um pouco de contexto: Okunoin é o maior cemitério do Japão, com mais de 200 mil sepulturas em pedra, sendo a mais importante a de Kobo Daishi (também conhecido por Kukai), o fundador do budismo shingon. Procurando estar o mais perto possível do Kukai, para que na morte recebam a salvação, milhares de pessoas foram sendo sepultadas em Okunoin ao longo dos séculos.

O resultado é um cemitério distribuído ao longo de centenas de metros quadrados, entre florestas de cedros imponentes, caminhos de pedra que serpenteiam as sepulturas, pequenos mausoléus e mais de 10 mil lanternas. Percorrer estes caminhos ao cair da noite, mesmo num dia chuvoso, foi uma das experiências mais marcantes desta viagem ao Japão. Era capaz de ficar ali horas, a ver e a fotografar os peregrinos a passar, os monges a caminho dos templos, as lanternas a ganharem vida ao anoitecer, o nevoeiro a começar a deslizar entre o arvoredo, o silêncio sepulcral.

Nesses momentos contemplativos lembrei-me o porquê de ter ido ao Japão fora da época alta: para viver momentos como este, sem a luz e o conforto quente do verão é certo, mas com sítios incríveis quase só para mim, com uma luminosidade fantasmagórica, difusa, perfeita. A felicidade num cemitério.

Ficam as fotografias para recordar para sempre Okunoin.

  



Comentários (4)

  1. Anónimo

    Obrigado e muitos parabéns, as fotos transmitem nos bem a situação que descreves, é fantástico, não tem nada a ver com os cemitérios comuns.
    Estamos atentos a todos os teus artigos.

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  2. Paulo Azevedo

    Parabéns. Acho que captaste bem a essência do local, pois eu senti-me a viajar lá e fez com que as memórias fervilhassem. As florestas japonesas com chuva miudinha ou nevoeiro é do mais delicioso que há.

    Estou curioso por ver que outros artigos ainda estão para chegar 🙂

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