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Crónicas Japonesas: arigatô Keiko

Chamava-se Keiko. Foi minha durante alguns dias. Encontrávamos-nos na estação de comboios de Shingu, uma cidadezinha portuária na península de Kii, na província japonesa de Kansai. Íamos calados no carro a caminho de casa. Não era preciso falarmos, o carinho que começava a sentir por ela não precisava de ser expresso em palavras. O silêncio pode ser uma prova de amor. Chegávamos a casa e ela cozinhava para mim. Um dia até me ensinou a fazer sushi, com uma sabedoria e paciência que me inspiravam admiração e gratidão.

De manhã, preparava-me o pequeno-almoço. Quando mo punha em cima da mesa de jantar ficava a olhar boquiaberto para o “menu” que tinha diante mim – a primeira refeição do dia incluía peixe fumado, arroz, sopa miso e legumes. Não é o pequeno-almoço que um ocidental esteja habituado, mas a cavalo dado não se olha o dente, e eu não me fazia rogado. Olhava para ela, ela olhava para mim, e eu sorria carinhosamente, tentando demonstrar o meu agradecimento da melhor forma que sabia.

Fizemos muitas coisas juntos naqueles dias. Fomos ao aquário ver as tartarugas, rimo-nos quando pusemos as carapaças de tartaruga às costas, eu disse que parecíamos o Tartaruga Genial do Dragon Ball. Fomos visitar alguns templos shintoistas em Shingu, onde o guardião do templo nos tocou uma música na flauta, sem pedir nada em troca. Às vezes saía à rua sem ela. Ia fazer caminhadas e quando chegava à estação lá estava ela à minha espera, como combinámos, uma prova de fidelidade e dedicação que admirava mais de dia para dia. Uma noite pusemos kimonos e, perante o ridículo de me ver assim vestido, rimo-nos novamente, timidamente mas cheios de vontade. Noutra noite mostrou-me como desenhar caracteres japoneses. Com um pincel e tinta negra escrevemos cuidadosamente os nossos nomes em folhas de papel. Guardei o desenho do nome dela como recordação.  Ensinou-me até a fazer origami, com uma gentileza que me deixou surpreendido, desarmado – fizemos um cisne azul e ainda hoje o guardo numa estante, perto dos livros sobre o Japão, como recordação daqueles dias de cumplicidade.

Chamava-se Keiko e não falava quase nada de inglês. E eu, claro, não falava nada de japonês. Comunicámos com gestos, expressões e algumas palavras que ela foi aprendendo. Quando nos despedimos tive pena e soube logo que ia sentir saudades daqueles dias, os melhores dias no Japão.

Chamava-se Keiko e era uma senhora dos seus cinquenta anos, mulher de um agricultor e mãe de uma filha chamada Tomoko que vive na cidade grande. Keiko aluga quarto da filha no airbnb e foi nesse quarto que fiquei durante aqueles dias passados naquela aldeia rodeada de arrozais e montes sagrados. Keiko foi a minha anfitriã e sei que nunca mais vou esquecer aqueles dias.

Arigatô Keiko.

 



Comentários (5)

    • Gabriel

      É mesmo. E pensar que é tão fácil comunicar em inglês em países “menos desenvolvidos” como a Índia ou qualquer um no Sudoeste Asiático…

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