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Istanbul: melancolia no Bósforo

Istanbul. Depois de Veneza, era a segunda vez numa semana que estava numa cidade que disputa o título de uma das mais, se não a mais, bonita cidade do mundo. A sua beleza é celebrada há centenas de anos, quando ainda era conhecida como Constantinopla.

Em meados do século XIX, Edmondo de Amicis, romancista italiano, chamou-lhe “o sítio mais bonito do mundo, e quem se atrever a negá-lo demonstra uma falta de gratidão perante Deus e a Natureza”, acrescentando que “os nossos sentidos não conseguiriam suportar uma beleza maior do que a de Constantinopla”. Paul Theroux, pouco dado a cidades, confessou que Istanbul era diferente: “é tão mágica como escrevem (…) Dizer que é maravilhosa é tão óbvio que é frívolo, mas a visão das suas mesquitas e igrejas pode ser quase de fazer parar o coração.”

A primeira amostra que tive da cidade parecia confirmá-lo. Assim que saí da estação de Sirkeci, dirigi-me à ponte de Galata, para dali ter uma visão panorâmica de Istanbul. À minha direita, a margem asiática da cidade (onde começa a Anatólia) e o Bósforo, o estreito que divide a Europa da Ásia e que liga o Mar Negro ao Mar de Mármara. À minha esquerda, o Corno de Ouro, um braço de mar que penetra a margem europeia de Istanbul (onde começava a antiga Trácia). À minha frente, as antigas cidades de Galata e Pera, que já foram Bizâncio e que são hoje os mais cosmopolitas bairros de Istanbul. E nas minhas costas, espraiado por sete colinas, o centro histórico, o coração palpitante da majestosa Constantinopla.

Da ponte de Galata descobri outra semelhança entre Istanbul e Veneza: as duas são cidades aquáticas. Veneza foi construída sobre estacas, a cidade turca não, Veneza tem centenas de canais, Istanbul tem basicamente dois canais gigantes, mas ambas estão intimamente dependentes do mar. A qualquer hora do dia é impressionante ver a quantidade de ferries a ligar os principais pontos da cidade.

Não dediquei muito tempo a Sultanahmet, o centro histórico. Apenas deambulei naquele labirinto umas horas, o suficiente para acordar todos os meus sentidos. “Istanbul não é uma cidade; é um delírio colectivo. Em nenhuma outra parte do planeta pode existir uma cidade onde cada um dos sentidos do visitante é estimulado e abalado de forma tão implacável. É uma experiência simultaneamente confusa, vagamente enervante e estranhamente excitante”, escreveu Bill Bryson sobre o centro de Istanbul. Já Paul Bowles dizia que a desordem era a característica visual mais marcante desta cidade.

Como uma medina magrebina, Sultanahmet era o Oriente das mil cores, um mundo de mesquitas, bazares, vendedores ambulantes e lojas de todos os feitios. É difícil aos sentidos absorverem tamanha quantidade de informação, daí a importância de não ambicionar explorar uma área demasiado grande, mas antes dedicar toda a atenção a um punhado de ruas, só assim é possível reparar nos detalhes mais enriquecedores de uma cidade, que de outra forma nos escapariam.

Acabei a tarde ávido de outras paragens, menos intensas, por isso atravessei a ponte de Galata e passei os restantes dias junto ao Bósforo. Como diz o mais célebre escritor istanbulense, Orhan Pamuk, “o espírito e a força de Istambul provêm do Bósforo.” Fui à procura dessa força.

Encontrei-a em Karakoy, mesmo encostado ao mar. Um dos benefícios de viajar no pico do inverno em zonas habitualmente procuradas noutras estações é o preço mais baixo do alojamento. Fiquei num quarto com uma soberba vista para a cidade e para o Bósforo, um quarto que nunca teria possibilidade de alugar se tivesse viajado durante a época alta. Visitara Istanbul no verão há uns anos, mas como Pamuk, preferi a cidade no inverno.

“Gosto de contemplar os crepúsculos precoces, as árvores nuas que tremem no poyraz [vento norte] e, nos dias de transição entre Outono e o Inverno, as pessoas que, pela meia escuridão das ruas regressam apressadas a casa, embrulhadas nos sobretudos pretos. E as paredes dos prédios antigos e dos konak de madeira em ruínas, que em Istambul ganham uma tonalidade própria por falta de manutenção e pintura, despertam em mim uma agradável tristeza e o prazer da contemplação”, escreveu Pamuk.

Como ele, perdi-me em horas de contemplação a partir da janela do meu quarto, sobranceira ao cais de Karakoy. Dela vi todas as estações de um ano num só dia: primeiro a chuva torrencial e o vento, depois uma trovoada e uma tempestade de granizo, seguido de outra tempestade, desta vez de neve (Pamuk achava que era coberta de neve que Istanbul era mais bonita, mas não o pude constatar, a neve que vi caía e derretia logo) e, para terminar, um céu dramático, iluminado por um sol quente e uma luz avermelhada sem igual.

Da minha janela via o movimento incessante dos ferries, uns mais pequenos e apressados, outros enormes e silenciosos, numa coreografia lenta, a que se misturavam centenas de gaivotas atrás de cada um à espera de um pedaço de pão. Com tempo que sobra em Istanbul, dediquei horas sem conta sentado à janela, a observar a dança dos ferries. Pamuk ainda os usa como antídoto para a melancolia, dedicando-se a contá-los enquanto cruzam o Bósforo: “se não contar os barcos que passam, serei mais rapidamente agarrado pela tristeza e pelo sentimento de perda que a cidade difunde”. Não me meti em tais trabalhos, mas reconheci as suas propriedades terapêuticas, sobretudo quando foram acompanhadas pelo muezim das cinco da tarde e pela suave luminosidade do crepúsculo.

Pela primeira vez em dias, adormeci tranquilo.

Na manhã seguinte conheci Mohamed, um rapaz que trabalhava no meu hotel e que me captou a atenção por me ter dito que era sírio, mas ter um lustroso cabelo loiro e uns magnéticos olhos azuis-claros. Parecia mais um alemão do que um sírio. Vestia-se com cuidado e era muito calmo e cortês. Perguntei-lhe como tinha vindo parar ali.

– Vim para a Turquia para fugir à guerra no meu país. Saí de da minha cidade, Idlib, há cerca de dois anos, quando terminei a universidade ia ser obrigado a ir para a tropa, e com a guerra…
– Viste sozinho? E a tua família?
– Vim só eu. Eles ficaram lá. Felizmente as coisas estão melhores e o meu pai até consegue ir trabalhar todos os dias. Há dois anos estava tudo pior, havia guerra em todo o país. Agora, na minha cidade, pode viver-se de forma relativamente normal, só nos arredores é mais perigoso.
– Ainda bem que as coisas estão melhores…
– Mais ou menos. É verdade que os combates terminaram, mas sobrou a miséria. Na Síria não há segurança social nem outro tipo de apoio. Há muita pobreza. Muitas pessoas ficaram sem nada e agora vivem na rua, é muito triste. Ainda mais quando somos um país com tudo do melhor. A comida, o clima, o paisagem, a história, a educação, as pessoas, tudo é melhor na Síria que na Turquia.
– Como foste recebido aqui na Turquia?
– Aproveitam-se no nosso desespero para nos prejudicarem. Os refugiados sírios são muito mal pagos. Temos a sorte de, por causa do nosso nível de educação, sabermos falar melhor inglês que os turcos, e isso é o que nos safa e nos ajuda a arranjar trabalhos na indústria do turismo. Além disso também falamos árabe, que os turcos também não sabem.
– Vejo-te aqui na receção, mas também no restaurante e nas limpezas dos quartos, tanto de manhã como de noite. Tens um horário definido ou chamam-te quando precisam?
– O meu turno é de doze horas, das nove da noite às nove da manhã, mas nunca saio a horas…
Eram dez da manhã e Mohamed ainda estava a trabalhar.
– Depois tenho de descansar durante o dia. É complicado. Não tenho muita vida. Mas pior de tudo é que o dinheiro que ganho só chega para pagar o meu quarto e a comida, não sobra nada. As coisas em Istanbul são caras, é impossível poupar.
– Quando conseguires poupar algum dinheiro tencionas voltar à Síria?
– Sim. Quero voltar assim que possível. Quero muito. Tenho muitas saudades da minha família.

O azul dos seus olhos ganhou um brilho comovente à medida que lhe vinham as lágrimas aos olhos. Não consigo ver ninguém chorar sem chorar também. Emocionei-me. Mohamed estava de saída e ainda bem. Aquela conversa tinha-me perturbado. Precisava espairecer. A solução, mais uma vez, foi-me dada por Pamuk: “A vida não pode ser assim tão má. Seja como for, afinal de contas podemos sempre ir dar um passeio para os lados do Bósforo”. Despedi-me de Mohamed, desejando-lhe toda a sorte, e fui restabelecer-me da inquietação com um passeio no Bósforo. Era tempo de atravessar o Bósforo e chegar, por fim, à Ásia, ao Oriente. Era tempo de terminar a minha viagem.

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“O Bósforo é a fonte da nossa boa saúde, a cura das nossas doenças, a fonte infinita da nossa bondade e boa vontade que sustenta a cidade e todos os que nela vivem (…) O Bósforo associou-se profundamente em mim aos sentimentos de apego à vida, de entusiasmo de viver e de felicidade.” O milagroso Bósforo de Pamuk deu-me um novo alento enquanto empreendia a última etapa da minha viagem.

Apanhei o ferry para Kadikoy, no lado asiático de Istanbul e, naqueles minutos, apreciei a vida a bordo: famílias de mãos dadas, mulheres de lenço na cabeça, homens barbudos e ruidosos, grupos de adolescentes aos segredinhos, raparigas tímidas com um olhar modesto e vendedores ambulantes. Vi também uma das mais conhecidas características dos ferries de Istanbul: a constante presença de aves. Os turcos nutrem por elas (como pelos gatos) um sentimento de simpatia e, supersticiosos como são, atribuem um significado a cada espécie. Enquanto o ferry liga em poucos minutos dois continentes, a azáfama no terraço do barco é grande, com miúdos e graúdos a darem de comer a gaivotas e outras aves.

Eis Kadikoy. Finalmente a Ásia. O lado oriental de Istanbul é menos turístico, menos bonito e menos imponente. É mais habitacional e, se quisermos, mais turco, já que é nesta margem que vivem a maioria dos istambulenses. Atraquei em Kadikoy durante um call for prayer, quando todos os homens se dirigem às várias mesquitas, o que emprestou um colorido especial à minha chegada. Olhei à minha volta e senti ser o único turista num raio de quilómetros. Em Istanbul cumprimentaram-me em turco, perguntaram-me as horas e pediam-me direções. Senti-me invisível, o estado perfeito para alguém cuja única missão é a de assistir à vida dos turcos como ela é. Inconspícuo, atrevi-me a entrar numa mesquita que não aceitava estrangeiros durante a missa, mas em poucos minutos a transgressão pesou-me e saí dali.

Comprei uma balik ekmek (sandes de peixe grelhado) e, como espécie de sobremesa, um simit (anel de pão rijo, coberto com sementes de sésamo) e segui para a mítica estação ferroviária de Haydarpasa, o local onde fiz questão de terminar a minha viagem de comboio entre Lisboa e Istanbul.

Era daquela estação, rodeada por três lados de água, que saíam os comboios para todos os cantos da Ásia: Beirut, Bagdade, Alepo, Teerão… Atualmente, numa região cada vez mais fechada e num mundo dominado pelo avião, sobram poucos destes serviços. A Turquia tem relações cortadas com a maior parte dos seus vizinhos a oriente e os comboios, que outrora cruzavam o Próximo e o Médio Oriente, foram caindo um por um, até quase nenhum restar. A somar a este infortúnio, quando cheguei à estação de Haydarpasa, construída em 1906, descobri que estava em remodelação total. Inconformado, circundei o edifício à procura de reminiscências da glória do passado, mas tudo o que encontro é um cemitério de comboios abandonados e grafitados e, à volta da estação, decrépitos parques de estacionamento sem interesse.

Apesar de tudo, a estação de Haydarpasa era o local perfeito para terminar a minha viagem. Senti um impulso irracional de continuar. Havia qualquer coisa sobre a indolência de viajar que me fazia desejar continuar, mas este era o ponto mais distante a que chegaria nesta viagem. Quando regressar, é de Haydarpasa que espero retomar a minha jornada rumo ao Oriente (as obras estão previstas terminarem ainda em 2018). Para já, era tempo de pôr termo a esta longa jornada de comboio e voltar para casa.


O Meu Expresso do Oriente

Primeira parte (Lisboa-Istanbul)
1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Istanbul: melancolia no Bósforo

O que aí vem. A continuação do Meu Expresso do Oriente:
12 – Regresso a Istanbul
13 – O comboio Istanbul-Ankara
14 – O Outro Expresso do Oriente: 24h no Dogu Express
15 – O curdistão turco: Kars
16 – Na antiga Arménia: os templos de Ani
17 – De comboio pela Geórgia
18 – Notas de Tbilisi
19 – Notas de Yerevan
20 – A próxima etapa?



Comentários (2)

  1. OLIRAF

    Gabriel,

    Admiro a tua coragem para fotografar pessoas, especialmente, num país islâmico. Para mim, é sempre uma aventura fotografar um rosto ou um olhar nessas latitudes.
    Fiquei com vontade de descobrir o país da “Sublime Porta”.

    Votos de uma Boa Viagem!

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    • Gabriel

      Viva
      Não é fácil. O que vês aqui é um centésimo das pessoas que gostaria de ter fotografado. As que vou conseguindo consigo sempre da mesma forma: meto conversa sem sequer mostrar a câmara, depois de feita a “amizade”, no final, peço para fotografar. Muitas vezes fico de mãos a abanar, mas quando resulta sabe muito bem 🙂
      abraço

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