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Crónicas Japonesas: um estrangeiro em Gion

Não existem terras estrangeiras; é apenas o viajante que é estrangeiro.

Robert Stevenson, escritor escocês

Se existe um país em que nos sentimos estrangeiros, perdidos numa realidade que consegue ser quase alienígena, é o Japão. O facto de quase ninguém falar inglês contribui para o sentimento de alienação deste viajante, que se sente mais do que nunca um forasteiro; isto num país com uma grande influência ocidental, um paradoxo difícil de compreender, mais ainda de explicar, mas que foi visível em vários momentos e vivências desta viagem.

Ainda de barriga cheia do primeiro dia em Kyoto, quando visitámos a zona de Inari, o segundo dia foi dedicado ao bairro mais carismático desta cidade imperial – Gion. Kyoto tem centenas de templos e jardins magníficos e é impossível visitá-los todos, por isso o recomendável é escolher uma pequena zona e dedicar-se a ela sem pressas – Gion é a escolha certa.

É em Gion que estão a maioria dos edifícios históricos de Kyoto, poupados na Segunda Guerra Mundial, forrados a madeira, com vistosas varandas embelezadas por pormenores de madeira trabalhada. E é em Gion que, supostamente, se podem ver as últimas geishas do país. Nos dois dias que lá passei não tive sequer um vislumbre destes fantasmas do passado e, com toda a franqueza, se as tivesse visto saberia agora que, quase de certeza, não passariam de réplicas do que foram as verdadeiras geishas. Seriam mulheres que se vestiriam de geishas apenas para turista ver e fotografar (nas fotografias abaixo aparecem algumas mulheres de kimono tradicional, mas não se devem confundir com as geishas).

As verdadeiras geishas – ainda existirão? – certamente não se passeiam nas ruas de Gion à vista de todos, sabendo que serão um alvo perseguido por visitantes ávidos de conseguir “aquela” imagem do Japão que imaginaram – sobre isso escrevi a primeira crónica. Algumas estarão em bares e restaurantes, a “actuarem” para uma elite com poder e dinheiro suficientes para usufruir de tal privilégio. Outras, as maiko (aprendizes de geiko), estarão por ventura nas suas performances para turistas em espaços comerciais dedicados ao efeito.

Muitos dirão que viram geishas, que as fotografaram, que até assistiram a um espectáculo onde as viram actuar, mas terão mesmo visto uma verdadeira geisha? Ou apenas um simulacro do que outrora foi uma genuína geiko?

Gion, o “centro histórico” de Kyoto, vale pelos seus palácios e jardins, izakayas e casas de chá, lojas e… cemitérios. O de Chion-in é especialmente cativante. Surpreendeu-me o à vontade que tive (que me deram) em fotografar neste espaço – os funcionários do cemitério e as pessoas que vieram cuidar das campas ignoraram-me, um facto impensável noutras latitudes.

Num registo totalmente aposto ao de Chion-in, os bairros de Nishiki e Pantocho valem também um passeio. É lá que estão as lojas, restaurantes, tascas e restaurantes com tudo o que o visitante pode desejar, de bugigangas de todos os tipos – “mas porque precisa alguém daquela tralha!?” – a bonitas peças de decoração delicadamente trabalhadas (e dispendiosas).

O templo que escolhemos visitar na zona de Gion foi o de Kennin-ji, o mais antigo templo budista zen da cidade. Escolhemo-lo por ser mais calmo e menos procurado por turistas do que outros em Gion. Ao entrarmos, ouvimos as maravilhosas e hipnóticas orações budistas e seguimos o seu chamamento, até ao coração do templo, onde assistimos a uma “missa” que nos acalmou a alma e nos deu forças para o resto da viagem – era tempo de deixar a cidade e rumar às florestas e montanhas da região de Kansai. Finalmente íamos para o Japão rural, se é que ele ainda existe, mas isso fica para as próximas crónicas.



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