Vencedor do 1º Prémio dos Open World Awards 2017 da momondo // Vencedor do prémio Blogue de Fotografia de Viagens 2014, 2015 e 2016 da BTL Blogger Travel Awards

Dias quentes no frigorífico islandês

Sigurður e Margaret Ingólfsson acolheram-me na sua casa e foram para mim o sinónimo da simpatia islandesa, tantas vezes escondida atrás de caras fechadas e indiferença perante o turista. Quando já havia perdido a esperança de encontrar algum calor humano neste frigorífico nórdico, Sigurður e Margaret apareceram como uma dádiva, um aquecer de alma que veio mesmo a calhar a meio de uma viagem de 15 dias, como foram aliás aqueles dois dias na vila piscatória de Ólafsfjörður.

O plano inicial tinha como paragem natural a cidade de Akureyri, a segunda maior “metrópole” islandesa, com uma população de… 17 mil habitantes. Mas os preços altos da cidade acabaram por ditar uma dormida na pacata vila de Ólafsfjörður, na baía do fjord de Eyjafjörður. Uma noite que acabou por se transformar em dois dias, servindo de um bem-vindo intervalo retemperador numa viagem cujo plano ditava dormidas em sítios diferentes praticamente todos os dias.

Ólafsfjörður, para além de ter um nome impronunciável, tem também uma história ligada à pesca, como têm aliás quase todas as vilas e aldeias da ilha. A localidade desenvolveu-se à volta da indústria da apanha e processamento de arenque, sobretudo nos anos 40 e 50. Até essa altura só se chegava a Ólafsfjörður de carroça ou de barco. Agora até um túnel tem, facilitando a ligação ao resto do país. Cheguei à vila num fim-de-semana de festa. A única praceta da terra estava pejada de locais e visitantes e finalmente via alguma animação nas ruas islandesas. Era a festa anual… dos pescadores, claro está.

Vi um pouco de um concerto e até a um bar fui, coisa rara nesta viagem por paisagens inóspitas e ruas despidas de gente. Havia reservado pelo Airbnb a estadia com na vivenda do casal Sigurður e Margaret. Foram uma simpatia. Sigurður é pescador. Mostra-me com orgulho ilustrações dos barcos em que pesca, desenhados por si, emoldurados e pendurados nas paredes da sala da sua casa. A pesca no alto mar é dura e, a mulher, Margaret, espera dias a fio que o marido regresse. Alugam um anexo da casa aos poucos turistas que ali passam para amealhar mais algum. Falam com orgulho da sua terra que, apesar de igual a tantas outras, teve para mim uma atmosfera especial.

No dia em tivemos de partir, eu para a estrada, Sigurður para a pesca em alto mar, e com as despedidas já feitas, Sigurður desceu de sua casa, onde tinha feito um churrasco com a família, e não hesitou em partilhar o borrego assado que tinha sobrado ao desconhecido turista português. Não esperava esta, Num país onde comer é tão caro, foi uma atenção que soube pela vida e foi a melhor refeição da viagem. Ólafsfjörður aqueceu-me o estômago e a alma. Era hora de voltar à estrada, hora de voltar ao frigorífico islandês.