Vencedor do 1º Prémio dos Open World Awards 2017 da momondo // Vencedor do prémio Blogue de Fotografia de Viagens 2014, 2015 e 2016 da BTL Blogger Travel Awards

Dias felizes na ilha da fantasia

Na ilha de Amantani o tempo parece ter parado há décadas. Conhecida como a “Ilha da Qantuta” – nome da flor nacional do Peru e da Bolívia – Amantani é a maior das ilhas no lado peruano do lago Titicaca. O mais alto lago navegável do mundo (a 4000 metros) tem também uma parte na Bolívia, à qual o meu guia, o jovial Percy, peruano claro está, chamava de “kaka”. Titi o lado peruano, “kaka” o lado boliviano. Nada como uma bela guerrinha (felizmente amistosa atualmente) típica de zonas fronteiriças.

Apanhei o barco Puno-Amantani. Era mais um barco-calhambeque e demorou cerca de três horas até à também chamada “Ilha Fantasia”, nome que glorifica a sua beleza e misticismo. Já habituado à altitude e a navegar por um lago que mais parece um oceano, reservei esta parte a viagem à ao descanso, inspirado pela majestosidade daquela massa de água.

A camera desta vez ficou de lado. Durante algumas horas houve apenas contemplação. Pelo caminho parei nas muito turísticas ilhas de Uros. Há uns anos eram genuínas mini-aldeias flutuantes, feitas de palha, com pessoas a viverem por lá. Hoje não passam de um isco para que o turista gaste uns trocados. Tirei algumas fotos engraçadas, mas um maldito vírus num computador de um hostel tratou de as eliminar, como se o destino quisesse que aquele lugar não figurasse no meu arquivo. Enfim, vamos lá para Amantani.

Amantani praticamente não tem árvores. Também não tem carros, motas, nem electricidade (à excepção de um gerador e vários painéis solares). Os socalcos que ocupam toda a ilha dizem-me ser do tempo dos incas. Incrível, até por este sítio tão remoto os incas passaram. Os incas tinham de facto uma predileção por construir nos sítios mais inacessíveis da América do Sul.  Hoje vivem ali cerca de 800 famílias quechuas. Fiquei hospedado na casa de uma delas. Prepararam-me as refeições, a cama e fizeram um esforço genuíno para assegurar que a estadia tivesse o máximo de comodidade possível (louvável, tendo em conta as circunstâncias).

Ao final da tarde, o momento alto: vestir os turistas ocidentais com roupas típicas da ilha (a eles fica bem, a “nós”, no mínimo, ridículo…) e ir para a espécie de associação recreativa lá do burgo, dançar e beber Cusqueñas. Um serão bem passado. Dançámos, bebemos, divertimo-nos. Cá fora, o céu era do mais estrelado que já vi. Não surpreende, já que este é um dos locais com menor poluição luminosa do mundo. Como que a reviver a noite do deserto de Thar (na fronteira entre a Índia e o Paquistão), também aqui a noite dedicada à observação do cosmos envolveu trovoadas no horizonte. Dois anos separavam as duas noites, mas o encanto era o mesmo. A ver se não me esqueço de as procurar mais vezes em Portugal.

Acordei com o cheiro a panquecas e a mate de coca. Uma boa bucha era indispensável antes de seguir para a próxima ilha (Taquille). A cozinha trasbordava de vida. Estavam lá todos: a Rosália (a matriarca), o Wilder (o filho), a Daici (a filha), e ainda a Mafalda, a Rita, o Gustavo e o Pedro.

As pessoas certas há hora certa no local certo. Há dias felizes.