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Crónicas Japonesas: à procura de uma alma imaginada

Como começar a relatar uma viagem ao Japão? Estive no país do Sol Nascente um pouco menos de duas semanas e o planeamento foi relativamente simples. Como tempo não era muito e o voo era para Tóquio, não valia a pena sequer sair da principal ilha, Honshu. Outras ilhas japonesas, como Hokkaido e Okinawa, sempre me cativaram, mas teriam de ficar para uma próxima visita.

Se seguirmos os itinerário habitualmente seguidos pelos guias, então quem visita o Japão pela primeira vez não deve perder Tóquio e Kyoto, a capital moderna e a cidade monumental respectivamente. Numa só viagem tem-se uma visão do Japão cosmopolita e futurista (Tóquio) e o Japão mais tradicional e “genuíno” (Kyoto). É difícil fugir a este itinerário-base. É como vir a Portugal pela primeira vez e não visitar Lisboa e Porto. O problema é que, lá como cá, nem uma semana para cada cidade é suficiente. Eu tive três dias em cada.

Cemitério Okunoin, Koyasan

Prometi a mim mesmo antes de rumar ao Oriente: “nem penses que vais andar no Japão à pressa e “em manada” para ver as principais atracções. Vais focar-te apenas numa área de cada cidade e fugir das multidões”. Expliquei o plano à minha mulher e ela concordou de imediato. Tivemos relativo sucesso: em Tóquio cingimo-nos apenas a uma zona (Shinjuku/Harajuku) e em Kyoto fugimos dos grandes palácios e jardins, visitados por milhares de pessoas diariamente. Sabia que uma boa experiência no Japão não implicava visitar os grandes monumentos e perder horas em filas. É verdade, certamente perdemos locais magníficos, mas ganhámos outros, talvez menos imponentes mas igualmente fascinantes.

No fundo eu queria o que todos querem: ver o lado mais autêntico do Japão. Aquele que vemos nos filmes de época: a terra dos samurais, das geishas, das florestas místicas de cedros imponentes, dos jardins “zen” meticulosamente cuidados, das izakayas (tascas) típicas cheias de japoneses vestidos com os tradicionais kimonos, das castiças pequenas aldeias piscatórias (como as do maravilhoso Ponyo), das casas em madeira com as tradicionais portas forradas a papel, por aí fora.

É destes encontros que todos vêm à procura, a tradicional “alma japonesa”, imediatamente à nossa disposição à distância de voo o mais directo possível. O filósofo e viajante Nicolas Bouvier, no seu livro “The Japanese Chronicles” (ao qual vou pedir emprestado o título para os meus posts), aborda precisamente esta procura:

Os estrangeiros vêm ao Japão à procura da “alma japonesa”. A sua ignorância ser transformada em conhecimento, servida numa bandeja de forma fácil e rápida por favor, para que possam discuti-la em casa quando regressarem a casa. Viajamos para este país frugal com os nossos exigentes e ambiciosos metabolismos: todo o Ocidente é assim.

Bouvier viajou várias vezes ao Japão e neste excerto explica que o Japão autêntico que procuramos não se encontra de imediato servido numa bandeja. Este não é um país que possamos conhecer numa viagem apenas, provavelmente nem sequer em dez. Entender e conhecer o Japão implica muito mais do que isso e eu parti com essa consciência.

Sabia que duas semanas não chegavam para conhecer nem sequer a ponta do icebergue desta cultura milenar. Mas fiz o mais que pude: li vários livros sobre o Japão e tentei que a viagem, pelo menos a segunda metade dela, fosse o mais autêntica possível – passámos os últimos dias em pequenas vilas e ficámos a dormir na casa de uma família que vive numa aldeia que não conhece turistas, mas essas histórias ficam para as próximas crónicas.

Jardim Gio-ji (Kyoto)

Para já importa apenas dizer que aquele Japão tradicional que vemos nos filmes é mais difícil de encontrar do que imaginamos. A influência ocidental é enorme e mesmo as pequenas vilas já estão modernizadas. No entanto, com alguma organização e pesquisa, podemos encontrar alguns sítios que ainda preservam uma faceta mais tradicional. É sobre esse sítios que vos vou falar nos próximos posts.

Resumindo, o meu itinerário no Japão foi o seguinte:

Tokyo – 3 dias
Kyoto – 3 dias
Monte Koya – 2 dias
Península de Kii – 3 dias
Osaka – 1 dia

Próxima Crónica Japonesa: Tokyo



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