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Como vencer a timidez na fotografia? A resposta veio de Zanzibar

A timidez é uma das principais dificuldades dos fotógrafos na hora de fotografar pessoas. Grandes nomes desta arte disseram já em entrevistas que sofrem ou sofreram de timidez. Também eu sofro deste “mal”. Fui um adolescente e jovem adulto bastante tímido, corando imediatamente quando tinha de falar ou interagir com qualquer moçoila e, falar em público, nem que fosse para 10 pessoas numa sala de aulas, era um suplício. Hoje, com 34 anos, ainda sou tímido, apesar de bem menos do que antes. Ajudou-me ter estudado jornalismo, ter trabalhado em funções que me exigiam muita interacção social e apresentações públicas e, sobretudo, ajudou-me a fotografia.

Mas não é verdade que a câmara fotográfica pode ser usada como uma forma dos fotógrafos se “esconderem”? De criarem uma barreira entre si e os outros? De se imiscuírem de criar contacto com o olhar, e com isso perpetuar a timidez? Acho que sim. É verdade que muitas vezes o papel de ter de ser o “fotógrafo de serviço” nos permite fugir das obrigações sociais e ter um papel mais de observador, em vez de actor. Talvez seja por isso que pessoas mais introspectivas e reservadas se viram para a fotografia, sobretudo de rua ou mais “artística” e abstracta.

No meu caso a fotografia levou-me para a rua, primeiro para cenários pouco “exigentes”: fotografar monumentos, paisagens, miradouros, cascatas, praias… Fotografava para brochuras e sites turísticos e a tarefa era relativamente pacífica. Quando passei a viajar para fora de Portugal a toada era a mesma: fotografava paisagens e cenários urbanos. No entanto, quando olho agora para essas imagens sinto-as um pouco despidas de alma. Estava-me a faltar um elemento: o humano.

A timidez estava a bloquear-me a presença do elemento humano. Fotografar pessoas é muito diferente de fotografar paisagens e monumentos. Exige mais de nós, pede para nos abrirmos mais aos outros e implica pedirmos aos outros que se abram mais para nós. E isso pode ser assustador (sobre isto escrevi noutro post: 15 dicas para fotografar pessoas em viagem)

Quando dou workshops de fotografia de rua e peço aos meus alunos que me tragam um retrato espontâneo em 10 minutos, muitas vezes ficam a olhar para mim: “como assim!?”. É difícil superar a timidez. Mas algo curioso acontece nessa altura: quando regressam, a maioria não só conseguiu um bom retrato, como vem com um sorriso na cara. É a magia da fotografia a funcionar. Nos dias que correm, em que os comboios e os autocarros vão completamente mudos, com todos os olhos postos em ecrãs e todos os ouvidos tapados com phones, há poucas razões para metermos conversa com alguém na rua. Felizmente a fotografia é uma delas.

Também eu fui superando a timidez à medida que passei a viajar mais, a trabalhar mais com pessoas, a dar workshops, a falar em palestras e encontros. E finalmente preenchi a lacuna que identifiquei nas minhas imagens: o rosto humano. O rosto humano é fascinante. Consegue transmitir mais histórias e tem uma maior diversidade do que todas as paisagens do mundo.

Apesar de tudo, a timidez ainda vive em mim, e vive em muitos fotógrafos. Conheço vários que, sobretudo no início do seu percurso, lutam contra a timidez. Só a idade e a experiência conseguem a ir vencendo. Quanto mais velhos menos nos importamos com o que os outros pensam de nós, que é no fundo a base de toda a timidez.

É aqui que entra a minha mais recente descoberta para nesta luta: a fotografia instantânea. É verdade, as boas e velhinhas polaroids são perfeitas para quebrar barreiras quando estou a fotografar pessoas. Pude testá-lo numa viagem a Zanzibar, na Tânzania. Levei comigo não uma máquina de fotografia instantânea (tenho uma Instax Wide 210, que uso sobretudo em casamentos e sessões de retratos), mas sim uma impressora, uma Instax Share SP-2.

A impressora funciona desta forma:

1 – Emparelha-se a câmara com a impressora (a câmara precisa de ter wi-fi; a Fujifilm XT-1 e XT-2 têm ambas essa funcionalidade)
2 – Tira-se a fotografia (convém ser na vertical, pois é esse o formato da instax)
3 – No menu de visualização da imagem seleciona-se a opção de enviar a fotografia para a impressora (é possível neste menu fazer-se logo um crop da imagem para encaixar melhor no papel de instax)
4 – Estabelece-se uma ligação via wi-fi com a impressora (por volta de 5 segundos)
5 – A impressora, já carregada com um “rolo” de instax mini (10 imagens cada, à volta de 1€ cada), imprime a fotografia escolhida
6 – A instax demora sensivelmente um minuto a surgir (ajuda se for posta ao sol).

Todo o processo é entusiasmante. A demora para que a fotografia apareça cria ainda mais expectativa e, quando entregamos a fotografia, é muito bom vermos a alegria da outra pessoa que recebe a imagem. Apesar das maravilhas do digital, não há nada como receber uma imagem impressa em papel, sobretudo se for em menos de dois minutos.

A impressora é ideal para levar em viagem, já que é muito pequena e leve, e a bateria aguenta um dia intenso de impressões, o que me surpreendeu pela positiva. O preço a pagar desta portabilidade é a dimensão das imagens. A SP-2 usa papel instax mini, que têm por volta de 5 cm X 9 cm, bastante pequena portanto. Ainda aguardo um impressora da Instax que use a versão wide (+- 10 cm X 9 cm), que resultaria em fotografias muito maiores e mais impactantes.

Uma vantagem da impressora em relação à câmara instantânea é que posso fotografar com a minha câmara (neste momento uso uma Fujifilm XT-2), o que me permite escolher todos os parâmetros que pretendo (velocidade, abertura, ISO…), conseguindo fotografias com muito mais qualidade do que usando o modo automático da Instax Wide, o único modo.

Outra mais-valia de usar uma impressora em vez de uma câmara instantânea é o facto de ficar com a imagem original para mim. Assim os dois lados ficam a ganhar: o retratado fica com uma impressão e o fotógrafo fica com a original.

“Uma fotografia em troca de um sorriso”

Mas a maior vantagem é sem dúvida a ligação que se consegue com as pessoas. Na rua, quando pedia para fotografar alguém, muitas vezes era recebido com um “não”, mas assim que dizia “em troca dou-lhe uma imagem como esta”, tudo mudava. Sentia o entusiasmo, via os sorrisos nascerem e a magia acontecia.

É um pouco dessa magia que quis mostrar nesta galeria de imagens, todas tiradas na ilha de Zanzibar.

 



Comentários (9)

  1. Miguel Nunes

    Muito boa a ideia, não conhecia essa impressora, uso uma Lomo’Instant e tem resultados muito porreiros mas esta opção de enviar da digital para a impressora é muito bom.
    Fiz algo “idêntico” que me permitiu fazer alguns retratos na ultima viagem a São Tomé, em vez das fotos dava camisolas a miúdos e graudos trocava algumas palavras e no fim conseguia sempre um retrato da pessoa. Boas fotos e boas viagens

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  2. Anónimo

    Foi interessante ver o sorriso e alegria das pessoas ao serem fotografadas,com a sua própria foto na mão,muito vantajosa essa ideia,para conseguir melhores resultados!!

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    • Gabriel

      Obrigado Filipe!
      Cada sistema tem as suas vantagens não há dúvida, mas para viagem já não consigo ir com uma DSLR… Quando a apontamos para uma pessoa é quase como se fosse uma “arma”. Assusta a malta!

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