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Camelos, escaravelhos e estrelas

A última das paragens na Índia foi uma das mais marcantes. A jornada estava já na reta final. Vindo de Delhi, tinha já atravessado todo o Rajistão em direcção ao Paquistão. A última cidade da lista era Jaisalmer. Depois de um dia a percorrer o centro, era tempo de rumar ao deserto de Thar (ou Grande Deserto Indiano). A pequena empresa que arranjei chamava-se Trothers Travels e iam-me levar, de camelo, às dunas do Thar.

Acordar às cinco da matina soube surpreendentemente bem, pior foi querer sair do hotel e o portão estar fechado. O “staff” estava no sítio do costume (nos hotéis mais modestos dormem todos no chão da receção do hotel), mas até essa porta estava fechada. Era de noite, ninguém na rua, não tinha bateria ou saldo (ou ambos) no telemóvel, o jipe para me levar ao jipe e, por sua vez, aos camelos, aguardava. Não conseguia contactar ninguém. Só restava uma solução: gritar. “Heeeeyyy”, “siiiir”, “someoooonee”.

Depois de alguns (longos) minutos, vieram finalmente as respostas. Grumpf”…“shut up… “what do you want?”. Mas não vieram dos empregados do hotel, era de um tipo qualquer a dormir num quarto perto de onde berrava. Bem pedi ajuda, mas nada, o sono e rabugice do senhor eram mais importantes que ajudar um pobre “fellow traveller”. Os empregados – provavelmente exaustos do (demasiado) longo dia de trabalho – é que nada. Uma figura na rua. Boa, aqui está a solução. “Pode tocar aí à campainha insistentemente, please?”. Resultou. Lá abriram a porta, disseram adeus até à próxima e felizmente o jipe ainda não tinha saído.

Levaram-me aos possantes camelos. Subir para cima de um camelo revelou-se uma tarefa hercúlea. Podiam ter avisado que era equivalente a uma girafa… O desconforto – para as partes baixas sobretudo – também era pior do que tinha previsto. Cinco minutos em cima do animal são de facto uma boa experiência, mas após três horas e muitos quilómetros em trilhos de dunas e calhaus, o corpo já pede descanso. O Thar não é propriamente o Sahara, pelo menos nesta parte. A vegetação abunda, até porque é tempo de monções e, já se sabe, a erva rasteira não desperdiça uma única oportunidade para nascer em cada canto. A zona onde ia pernoitar – Bhoto Ka Dhibba, junto à fronteira com o Paquistão – era, no entanto, de dunas “a sério”.

A promessa de “dormir ao relento a ver as estrelas” parecia aliciante. A quantidade de mosquitos, escaravelhos e outros tantos “creepy crawlers” não. Fora as “cobras venenosas potencialmente mortais” que o Lonely Planet me alertava. Mesmo assim arrisquei. “Com tenda não tem piada, saco-cama em cima da areia é muito mais catita”, pensei. Os últimos dias tinham sido nublados (como quase sempre) e quando vi que precisamente nesta noite ia estar uma noite estrelada, agradeci aos céus, literalmente.

Depois de comer o que havia no cardápio, ou seja, o mesmo que tinha comido nos cinco últimos dias basicamente, preparado numa lareira no deserto – uma daquelas cenas que nos fica na memória para sempre –, montei a confortável “cama” na duna mais “fofa” que havia por ali, deitei-me e vivi alguns dos minutos mais marcantes da viagem. Se há coisa de que gosto é olhar para as estrelas e é incrível as poucas vezes que o faço num ano. Passamos o tempo a olhar para baixo, raramente para cima. E mal. Ver um céu estrelado com tamanha nitidez é melhor que ver qualquer filme num ecrã FullUltraXpto3DHD. Como podia pedir mais? Pois mais havia. O céu estrelado era caprichosamente rodeado por várias trovoadas no horizonte. Estavam por todo o lado, em 360º,mas não onde estava o meu acampamento. Ali era um oásis de céu bestialmente estrelado. Sem tripé, não havia como registar tal cenário. Há imagens que não precisam de ser pintadas, basta existirem na memória.

Tudo o que é bom acaba depressa. O frio e a humidade começavam a chegar, os escaravelhos também. Tão fascinantes durante o dia, à noite, quando estão protegidos pela total escuridão e quando podem afinal nem sequer ser escaravelhos, o caso muda de figura. No silêncio absoluto, o barulho de dezenas de perninhas a caminharem na nossa direção (vá-se lá saber porquê), começava a incomodar-me. Decidi colocar os auscultadores e ouvir um álbum dos Sigur Rós, que achei apropriado para este momento de pura contemplação. Até porque, assim, não ouvia os meus amiguinhos insectos. Deixei de ouvi-los sim, mas comecei a senti-los. O ataque noturno começara e eu era o alvo a abater. Escaravelhos do tamanho de isqueiros trepavam-me pelas pernas. Uns minutos ainda se aguenta, mas a noite toda é de loucos. A aventura ao relento tinha terminado. Cedi à “proteção” da tenda. Era transparente. As estrelas continuavam ao meu alcance, mas também a humidade, o frio e o som dos insectos. Devo ter dormido umas duas horas. O barulho de centenas de mosquitos, escaravelhos e seus priminhos a tentarem entrar na tenda para passarem a noite contigo era equiparável ao ataque dos ”zeros” japoneses a Pearl Harbor.

Constipado, picado, cansado, magoado e molhado. Foi como acordei. Ver um nascer do sol no deserto? “Checked”. Seguir para mais uma data de penosas horas em cima de um camelo? “Checked”. Arrependimento de me ter metido na alhada? Nada disso…