Melhor Blogue Fotografia de Viagens 2014,2015,2016,2018 (BTL Blogger Travel Awards) // Melhor Blogue de Viagens Open World 2017 (momondo)

Notas de Budapeste

Comboio Graz-Budapeste: Agora sim, começa a verdadeira viagem. Pela primeira vez desde início da minha jornada de comboio Lisboa-Istanbul, estou a entrar num país que não conheço, território inexplorado do meu mapa da Europa. Atravesso a antiga Cortina de Ferro, vindo da Áustria, entrando na Hungria pela cidade de Sopron. Vou a caminho de Budapeste. No comboio oiço pela primeira vez numa semana uma língua totalmente desconhecida. Apesar disso, reconheço o “alô” que as pessoas dizem aos companheiros de carruagem quando entram no comboio. O curioso é que quando saem dizem exatamente a mesma palavra: “alô”. País estranho este em que entro, onde usam a mesma palavra para se cumprimentarem e despedirem!

Na Hungria deparo-me com um inverno rigoroso, quase ártico. Já o antecipava. Do conforto da carruagem, que segue lenta, aos solavancos, vejo uma paisagem infinitamente branca, atravesso a grande planície húngara, uma das regiões mais intensamente cultivadas da Europa. Imagino que nenhuma colheita sobreviva nestas condições. Não vejo casas ou estradas, muito menos pessoas. Noto apenas vários pontos pretos que sarapintam os campos aos pulos, são gralhas, as únicas que toleram esta tempestade branca.

Estação de comboios de Budapeste: A estação de Keleti é bela e majestosa, um bom prenúncio para o resto da cidade? Dizem-me que Budapeste é uma das mais bonitas cidades da Europa, até há quem se atreva a dizer que é mais bonita do que Praga. Leio opiniões contrárias de dois dos mais entendidos estudiosos da Europa Central. Claudio Magris diz ser “a mais bela cidade do Danúbio” e reconhece-lhe “uma altivez e uma imponência de cidade protagonista da História”. Por outro lado, Jan Morris confessa que, apesar de ser uma capital imponente, “não me parece ser uma cidade muito bonita, ao contrário do que dizem as brochuras turísticas”. Depois de alguns dias de visita, tendo a concordar mais com Morris.

Enfrento o frio e vou para ao centro. Para passar para o outro lado de uma avenida tenho de atravessar um túnel, através de uma estação de metro. Lá, deparo-me com uma triste realidade, que vou encontrar em toda a cidade: no chão da estação dormem cerca de dez sem-abrigo. As pessoas apressadas quase os atropelam. É de manhã e a polícia está por toda a estação, parece ser um cenário normal, suponho que devam estar ali devido ao frio extremo.

Peste: o lado oriental da cidade, na margem direita do Danúbio, é mais comercial e plano, com grandes boulevards inspiradas em capitais como Paris ou Viena. Exploro esta zona e vejo as mesmas lojas de sempre, as mesmas marcas. As montras têm preços em euros e anúncios em inglês. Parece que todas as lojas têm massagens tailandesas. Paro num café e leio que Budapeste é considerada uma capital do sexo, conhecida pelos clubes noturnos que “raptam” turistas mais incautos, que, não se informando dos preços praticados, no final da noite são obrigados a pagar avultadas somas em euros, sendo acompanhando-os até às caixas de multibanco (todas disponibilizam euros) que cada um dos clubes tem à porta. Milhares de jovens e menos jovens visitam Budapeste por causa das suas noites de arromba. Depois de ler o guia tomo uma decisão: vou para o hotel dormir.

Buda: na manhã seguinte sigo para Buda, na margem esquerda do Danúbio, a parte antiga da cidade, solene, com colinas cheias de palácios, catedrais e castelos. Caminho com todo o cuidado junto ao castelo, por calçadas congeladas e escorregadias. Turistas de sapatilhas rogam pragas à neve e andam ainda mais devagar do que eu. Do miradouro do castelo tenho vista panorâmica para Peste. É geométrica, infinita, quilómetros de quarteirões desenhados a regra e esquadro. Uma turista asiática, vendo-me de câmara fotográfica ao ombro, pede-me para a fotografar com a câmara dela, com a cidade ao fundo. Já está. Mais uma por favor. Agora na vertical. Agora com a ponte. Afinal é australiana, apesar de parecer coreana e mal falar inglês. Depois fotografo um casal. Depois um grupo de espanhóis. Não gostámos muito desta, consegue apanhar mais a ponte? Está melhor, mas pode tirar outra? Mais outra. Sozinho, sem pressa e com câmara ao ombro sou um alvo fácil. Vem aí mais gente, deixem-me fugir.

Termas Gellért: fujo para um dos mais fascinantes locais de Budapeste, as termas de Gellért, junto à margem do Danúbio. Com um exterior art nouveau e um interior clássico, este labirinto de piscinas aquecidas, salas e balneários foi uma agradável surpresa. Apesar de turístico, o facto de ser inverno e de ter chegado cedo foi importante para as termas não estarem demasiado cheias. Vi sobretudo húngaros e muito poucos turistas. A piscina interior central, de água morna, é enorme e com bonitos apontamentos clássicos, mas confesso que esperava mais. Foram sim as pequenas piscinas mais ao fundo do edifício que me maravilharam. Todo a decoração e ambiente fizeram-me lembrar um filme de Wes Anderson. Discretamente, tiro algumas fotografias das piscinas. Nem sei como me deixaram entrar de câmara e fotografar livremente. Aposto que esta liberdade não durará muitos mais anos. Há uma piscina com água a 36º C, com mais gente, e outra a 40º C, com poucas pessoas. Experimento as duas e prefiro a segunda. Relaxo naquela panela de água a ferver a cheirar a enxofre. Ao meu lado, um idoso está há tanto tempo debaixo de uma pequena cascata de água a ferver que tem a metade inferior do peito branca e a metade superior cor de tijolo. A linha divisória no seu corpo é pronunciada, aquele banho de enxofre tornou-lhe os pelos brancos em pelos da cor da ferrugem. Não quero ficar com um bronzeado à Trump. Saio dali e vou almoçar.

Peste: de volta a Peste, passo à frente de uma sala de cinema chamada Uránia Nemzeti Filmszínház e reparo que dentro de minutos vai começar um filme húngaro com legendas em inglês. Dado o frio na rua e sem programa que me atrapalhe, decido comprar um bilhete. O filme chama-se Testről és Lélekről e conta uma história de amor entre dois personagens que se encontram nos sonhos um do outro: Endre, um homem com o braço esquerdo atrofiado, diretor financeiro de um matadouro; e Mária, uma loira com comportamentos autistas, inspetora do matadouro. Não tinha grande expectativa do filme, ia apenas pela experiência, mas gostei bastante e decorei o nome do filme em inglês, On Body And Soul, para depois pesquisar mais sobre ele. Qual não é o meu espanto quando, semanas depois, o encontro entre a lista dos nomeados para o Óscar de melhor filme estrangeiro (infelizmente não ganhou).

Na magnífica sala de cinema, quando o filme acaba, surge o genérico ao som de uma poderosa e emotiva música. Ninguém se levanta. Ao meu lado, reparo numa jovem loira, muito parecida com a atriz (“será que ela está aqui ao meu lado e vem ver a reação do público??”), mas que não é a atriz, e noto as lágrimas iluminadas pelo brilho do ecrã que escorrem pelo seu rosto. Olho à volta e vejo mais pessoas a chorar. Foi de facto uma história bonita e também eu me sinto emocionado. Para minha surpresa ninguém se levanta até à último dos créditos aparecer. Será tradição na Hungria? Ou terá sido uma reação excepcional a um filme realmente excepcional?

Depois de três dias em Budapeste, sigo viagem para a Roménia. O comboio noturno para Bucareste parte só às 11 da noite, por isso passo no meu hotel para fazer um pouco de tempo e apanhar a minha mochila. Curioso, o dono do hotel pergunta-me para onde vou.

– Vou apanhar o comboio para Bucareste.
– Vais para a Roménia? Cuidado no comboio. Dorme com os teus valores junto a ti, é uma viagem perigosa.
– Mas primeiro vou parar uns dias em Sighișoara.
– Sighișoara!? Cuidadinho lá também… Há muitos ciganos, é uma terra pequena… Aliás, no geral os romenos são tramados.
– São tramados? Conhece-lo bem?
– Sim, sim. Sou romeno.

Encaminho-me para a estação de Keleti, para embarcar no noturno para Bucareste. Ansiava por esta parte da viagem. A partir daqui, e até ao final da jornada, vou seguir as pisadas do velho Expresso do Oriente, até Istanbul. Chego à estação eufórico e sinto uma energia diferente… Retiro o que disse na primeira das minhas notas. Agora sim, começa a verdadeira viagem!


O Meu Expresso do Oriente

Primeira parte (Lisboa-Istanbul)
1 – O Lusitânia
2 – Mio cicerone, Signor Pino
3 – Veneza, ainda mais bonita sem maquilhagem
4 – Notas de Budapeste
5 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio entre Budapeste e Sighisoara
6 – Transilvânia: entre túmulos e restaurantes de luxo
7 – O velho que não sabia usar o mapa do telemóvel
8 – O Meu Expresso do Oriente: o comboio Bucareste-Veliko
9 – 4 pessoas que conheci na Bulgária e de quem guardei boas memórias
10 – O Meu Expresso do Oriente: o Expresso do Bósforo
11 – Notas de Istanbul



Deixe um comentário