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Amazonas numa canoa

O “lodge” onde fiquei alojado durante aqueles cinco dias chamava-se Mayuna, que significa “remoinho”. Os proprietários decidiram dar esse nome inspirado nos remoinhos que nascem quando os remos das canoas penetram as águas do Amazonas e fazem o barco mover-se.

Um rasto de “mayunas” é deixado pela canoa em deslocação. Um remoinho de emoções foi também o que vivi durante aqueles cinco dias. A duas horas de barco de Iquitos, a capital da amazónia peruana, o Mayuna deverá ser dos alojamentos mais remotos do mundo. Não há nada num raio de quilómetros, a não ser floresta tropical e um pequeno “pueblo”, tão pequeno que é identificado apenas como “caserio”.

O lodge era “ecofriendly”, o que ajudou na altura da escolha do local a servir de casa-mãe para explorar a selva. Depois de duas semanas a percorrer o Peru a grande velocidade, era altura de terminar uma viagem como sempre gosto: uns dias finais mais relaxados, explorando apenas uma pequena área e dando tempo ao tempo.

No Peru esse local só podia ser a Amazónia. Quanto mais viajo, mais tenho a certeza que é no “slow travel” que se encontra a autêntica fórmula da felicidade em viagem. Para pressas já nos basta os restantes dias do ano. Devemos tirar o máximo partido de um destino de viagem, não devendo esperar em demasia dele.

Como escrevia Konstantinos Kaváfis, no poema “Ítaca”:

Não te apresses nunca na viagem. É melhor que ela dure muitos anos, que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho, e sem esperar que Ítaca te dê riquezas. Ítaca deu-te essa viagem esplêndida. Sem Ítaca, não terias partido. Mas Ítaca não tem mais nada para dar.

A melhor sensação numa viagem é quando ela perde o sentido de viajar como “visitar”, “passar” ou “ver”, e adquire o sentido de “viver”. Uma viagem não é evitar a todo custo a rotina, não é ver todos os dias um sítio novo, é sim criar rotinas em sítios novos. Foi assim naquele microcosmos amazónico durante cinco dias.

As manhãs começavam com um passeio de canoa nos afluentes do Amazonas. O guia chamava-se Jorge, um iquiteño com a sugestiva alcunha de “machete”, nome dado à faca/espada que usava a toda a hora para desbravar caminho pelo matagal. Aproveitando a menor humidade e calor da manhã, explorávamos as redondezas numa canoa, ora pela floresta densa, naquela altura do ano submersa pela água, ora por riachos de águas escuras e calmas, ora ainda pelas águas castanhas e agitadas do todo-poderoso Amazonas.

Procurávamos pelos animais mais exóticos, alguns, como preguiças, macacos, serpentes e aves, avistávamos frequentemente. Pescávamos piranhas em charcos escondidos, com um pau e uma linha com um pedaço de carne no anzol. Mergulhávamos (com alguma hesitação) nas águas tépidas e acastanhadas do Amazonas, pejadas de piranhas, para refrescar e para atrair os tímidos e evasivos golfinhos cor-de-rosa (os botos). Almoçávamos sandes, ovos cozidos e granadilhas no barco encostados a uma margem.

Visitávamos o “caserio” de San Juan de Yanayacu. Conversávamos com as “mestras” (as professoras) da escola do lugar, víamos alguns dos seus 31 alunos a jogar à bola no pelado junto à escola. Assistíamos ao magnífico pôr-do-sol na canoa, sem remar, deixando-nos levar pela corrente do rio. As noites eram ocupadas à cata de caimões, tarântulas, rãs, morcegos-pescadores e outros animais nocturnos.

No final, ficávamos no barco em silêncio, a ouvir os sons da selva, rodeados de centenas de pirilampos e por um céu incrivelmente estrelado. Os finais de noite eram dedicados à sueca, à leitura e à conversa. Já na cabana, literalmente em cima da água, basicamente sem paredes, apenas com redes mosquiteiras à volta, adormecer era uma experiência fora do comum. Embrenhado na floresta e sem nada que abafasse o ruído, adormecia ao som de milhares de animais nocturnos, numa sinfonia difícil de descrever.

Há poucos sítios que nos marcam verdadeiramente. Da minha parte, consigo contá-los com os dedos das mãos. Aqueles cinco dias, como costumo dizer, “fortaleceram-me (um pouco mais) o carácter”. É na descoberta de realidades tão distintas que crescemos e alargamos horizontes.

Incapaz de mensurar em palavras experiências como esta, recorro antes a um texto do professor José Tolentino de Mendonça sobre o tema:

Deslocar-se, queira-se ou não, implica uma mudança de posição; uma alteração ao ângulo habitual; uma exposição ao diverso; uma maturação do próprio olhar; um reconhecimento de que alguma coisa nos falta; uma adaptação a realidades, tempos e linguagens ou a descoberta de uma incapacidade para tal; um confronto inexcusável; um diálogo tenso ou deslumbrado que nos deixa, necessariamente, com uma tarefa ulterior.