Vencedor do 1º Prémio dos Open World Awards 2017 da momondo // Vencedor do prémio Blogue de Fotografia de Viagens 2014, 2015 e 2016 da BTL Blogger Travel Awards

A caminho da velha montanha

Não podia pedir mais. O Benfica tinha sido campeão e no dia seguinte ia finalmente chegar ao Machu Picchu (MP). Não tinha rede no telemóvel há vários dias, mas nos únicos segundos em que a tive, no topo da montanha mais alta das redondezas andinas, consegui receber três SMS’s de três valorosos amigos que tiveram a simpatia de me dizer o resultado. Celebrei nos poucos minutos que tive de descanso.

Ainda faltavam alguns quilómetros de Caminho Inca para chegar à ansiada cidade. Cénicos sem dúvida, não esperava era fazê-los de noite… O acampamento mais próximo do MP estava cheio (reservei com vários meses de antecedência, imagino se fosse em cima da hora…) e a solução passou por dormir num mais afastado, o acampamento Wiñayhuayna. A vista para o vale do rio Urubamba (o meu nome quechua favorito da viagem ao Peru) era arrepiante.

Mas arrepiante mesmo foi fazerem-me acordar às três da manhã (três… exacto) para chegar à porta do MP – a Porta do Sol, ou Intipunku – durante os primeiros raios do amanhecer do sol. O trilho noturno foi um misto de excitação, dor e também pressa, já que todos queriam ser os primeiros a chegar. Foi um trilho pela penumbra, sem luzes num raio de quilómetros. Apenas se viam as pequenas lanternas dos caminhantes, assemelhando-se a pirilampos em fila indiana pela montanha acima. Só que eu era o pirilampo cegueta, qual Mr. Magoo.

A lanterna que tinha, emprestada por sinal, estava toda desfeita no buraco da (nauseabunda) latrina do acampamento. Tinha caído nessa madrugada, durante uma tentativa de urinar com ela (a lanterna) presa no queixo. Quando a dita caiu (precisamente no buraco das necessidades fisiológicas…), espatifou-se e tive de confiar na minha pontaria naquele breu total. Não que falhar o alvo fizesse diferença, dada a higiene do local… Nessa altura assaltou-me a dúvida: “Se ela não continuasse a funcionar o que fazias Gabriel? Ias buscá-la?”.

Afastei o desagradável pensamento e comecei a jornada do dia usando a milenar técnica “vai-o-mais-junto-possível-aos-outros-para-ver-se-vês-alguma-coisa”. Por volta das cinco da matina já havia alguma luz e pude finalmente caminhar com mais certezas. Caminhar não, correr. Todos queriam ver o nascer do sol no MP. Depois de trilhar mais de 35 quilómetros pelos Andes, o guia ainda teve o atrevimento de dizer “os últimos metros são os mais difíceis de todos, são muito íngremes, tão íngremes que mais parecem umas escadas, têm de usar as mãos para avançar”. Ora bolas. Durante um segundo veio-me à cabeça: “Porque não vim eu de comboio como as pessoas normais? Porque não fiz eu a versão curta de um dia apenas? Não, tinhas de fazer a versão de quatro dias, armar-te em ultramaratonista.”

Mas o “rebuçado” prometido estava para lá daquele morro, a luz da manhã estava a ganhar mais força e depressa a motivação voltou. A Porta do Sol é no topo de uma montanha, de onde se tem um conhecido plano picado do MP. Mais um esforço. Mais uns metros. E ali estava ela, a vista para a cidade de Machu Pichhu, a “velha montanha” em quéchua, na majestosidade dos seus 2400 metros, rodeada pelos Andes.

Só havia um problema: a velha montanha estava com um cerrado manto de neblina em cima. Já sabia que este era um dos riscos de visitar o Peru durante o fim da época das chuvas. Chover, precisamente.O meu amigo Pedro dizia desde que tinha chegado: “Estou aqui na boa, não tenho grandes exigências nem expetativas, só rezo para que não aconteçam duas coisas: magoar-me/ficar doente e apanhar neblina no MP”. Pois bem, ali estava o meu amigo Pedro a ver as nuvens a tapar uma das maravilhas do mundo, com um pé mais inchado que o Fernando Mendes depois de uma patuscada, resultado da torção que tinha feito no dia anterior a descer umas escadas. Ia ficar inchado quase até ao final da viagem, até um “endireita” amazónico lhe “arranjar” o pé. Mas nem tudo era mau. Auriol, o guia, dizia que pelo aspeto do céu íamos conseguir ver as ruínas por entre as nuvens não tardava muito.

Esperámos alguns minutos e a cidade inca acabou por se mostrar timidamente. Nos restantes quilómetros de caminho até ao MP o céu foi abrindo. A sorte estava afinal do nosso lado. Chegámos à entrada da cidadela. A deusa Pachamama – ou mãe-terra – ouviu as nossas preces e deixou-nos apreciar o MP em todo o seu esplendor. Passámos lá uma manhã. Mas afinal o Machu Picchu vale assim tanto a pena? Tenho esperança que as duas fotos que escolhi falem por si.

 




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