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10 dicas para sobreviver aos comboios indianos

DSCF9641-Edit Andar de comboio na Índia pode ser uma das melhores experiências a ter no país, mas é também um desafio que exige muita paciência e pode virar um pesadelo se não soubermos como funciona o sistema. Esqueçam os comboios europeus e a tranquilidade e eficiência a que estamos habituados.

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Na Índia a burocracia impera e os comboios não fogem à regra. Apesar disso, são sem dúvida o meu meio de transporte de eleição. Os aviões são bem mais eficientes e rápidos, mas a magia da viagem perde-se. Andar de comboio na Índia é uma experiência que não deve ser perdida. Se forem preparados de antemão com estas 10 dicas, melhor ainda:

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1 – É (quase) impossível comprar bilhetes on-line. Viajar para a Índia com alojamentos marcados é não só possível, como recomendado. É fácil com plataformas como o Booking ou outro semelhante. Vamos descansados sabendo que não é preciso procurar por um quarto em cidades desconhecidas e confusas. Mas o mesmo não se aplica aos comboios. É verdade que são igualmente desconhecidos e confusos, mas comprar bilhetes na internet é praticamente impossível.

O site oficial dos caminhos-de-ferro funciona assim: entramos, seleccionamos a página traduzida em inglês, consultamos horários e percursos, fazemos todo o processo de reserva, escolhemos o dia e hora e quando estamos quase a finalizar… pedem um número de telefone indiano! O quê!? Sim, para confirmar a reserva é preciso ter um número indiano, de modo a receber uma mensagem e finalizar o processo. Claro que ninguém tem um número indiano em Portugal ou noutro país. Então para que se deram ao trabalho de criar todo este sistema de compra? Sem sentido…

Supostamente existe um processo (demorado como não podia deixar de ser) em que podemos enviar um email para uma espécie de provedor, requisitando que usemos o nosso número internacional para a reserva. Já passei por isso e é para esquecer. Demoram uma eternidade a responder e enviam vários códigos de segurança que só atrapalham, simplesmente não funciona. Aí vamos nós voar para a Índia sem bilhetes reservados…

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2 – Como comprar bilhetes no país. E pensam vocês: “para quê comprar bilhetes on-line quando posso comprar nas estações e escolher no próprio dia a hora e o destino que quero?”. Pois bem: boa sorte. Se a viagem implicar ir a vários destinos e viajar de comboio (como quase de certeza implica), saibam que o processo é lento, burocrático e pode dar cabos dos nervos.

Primeiro que tudo, sobretudo se estiverem numa grande cidade turística, é preciso que não caiam num dos estratagemas típicos para nos enganar, como me ia acontecendo em Nova Delhi. Existem balcões de venda de bilhetes falsos, falsos funcionários fardados e agências de turismo duvidosas, no mínimo. A minha sugestão é simples: não cheguem a uma estação de comboio de uma grande cidade desamparados, sem saberem onde se dirigirem e como proceder. Usem a internet (wikitravel, foruns, blogues) para descortinarem onde é o balcão oficial para turistas daquela estação. Normalmente fica num segundo andar, perdido entre dezenas de outros balcões, num canto obscuro do edifício. É preciso é que esteja aberto. Os horários variam muito e são diferentes dos nossos. E depois há as filas e o passatempo típico dos indianos: passar à frente dos totós dos turistas brancos. Aqui têm duas opções: se não estiverem com muita pressa podem ser condescendentes e engolir o sapo; se estiverem com pressa entreguem-se aos leões e tentem lutar contra um sistema instalado há décadas. Acreditem, vai ser preciso sangue frio e muita paciência.

O pesadelo: Por incrível que pareça o pior ainda está para vir. Quando finalmente são atendidos terão diante de vós, na maioria das vezes, um funcionário pouco disposto a ajudar-vos, antipático e que mal sabe falar inglês. Felizmente estas pessoas não representam a maioria dos indianos, que são simpáticos e dispostos a ajudar.

E eis senão quando… depois da espera, e quando pensamos que finalmente vamos comprar o bilhete, nos informam que os comboios estão todos esgotados. Habituem-se, na Índia todos os comboios estão sempre esgotados e nunca há nenhum para os próximos dias. Dizem-nos sempre isso, mas não acreditem. Sabe-se lá porquê mas parece que não têm muita vontade que saiamos daquela cidade e dizem sempre que está esgotado. O mais espantoso é que se insistirem e se fizerem de coitadadinhos, se disserem por exemplo que têm um familiar doente na cidade X e que precisam mesmo de um bilhete, o mais certo é ouvirem um “ah, afinal há aqui qualquer coisita, no comboio de amanhã de manhã, dá?”. Então não dá… Que remédio.

A verdade: O que acontece é que os comboios indianos (os “intercidades”, chamados normalmente “região X Express”, e não os urbanos ou de curta distância) são enormes, com mais carruagens do que três alfa-pendulares juntos, mas 80% delas são de terceira classe, pouco simpática para qualquer ocidental habituado a padrões mínimos de conforto. Os lugares são apertados e, o pior, não têm A/C nem ventoinhas. Ora, quando vamos comprar um bilhete e perguntamos se há lugares, dizem-nos que não, mas é porque nem ponderam que possamos querer um lugar numa carruagem “indiana”, então dizem-nos simplesmente que não há bilhetes. Mas há, em terceira classe, lugares disponíveis muitíssimo mais baratos, e isso não lhes interessa vender, porque cada lugar em primeira classe é muitíssimo mais caro do que nas outras classes (mesmo assim muito barato para nós).

As listas de espera: os bilhetes de primeira e segunda classe de “intercidades” podem ser comprados on-line, mas como vimos é praticamente impossível, para nós não indianos, porque os indianos conseguem, como é óbvio, já que têm um número de telemóvel indiano. Então o que fazem é o seguinte: reservam bilhetes em vários comboios e em várias datas, e só depois decidem em qual vão. É por isso que os bilhetes estão sempre esgotados para nós turistas. É aí que entram as famosas listas de espera: o mais certo é que muitos desses indianos desistam das viagens e que lugares surjam para o turista, mas só acontecerá no próprio dia.

Nesse momento será preciso fazer uma escolha difícil: a) não arriscar, esquecer o comboio e arranjar um meio alternativo de viagem (avião, autocarro, táxi ou motorista privado – coisa que muitas “agências de viagens” vão adorar e procurar todos os meios para sacarem-nos uns trocos valentes) ou b) arriscar e ficar em lista de espera na esperança de viajarmos naquele comboio. Para facilitar a escolha podem perguntar em que lugar ficarão na lista de espera. Se for abaixo do número 15 (ou seja, conseguem bilhete se 15 indianos desistirem entretanto) existe uma grande probabilidade de conseguirem bilhete. Mas terão de esperar até ao próprio dia para o saber e isso tem de ser tido em conta na hora de decidir se vale a pena arriscar. Paga-se o bilhete na altura e, caso se acabe por não se conseguir o lugar no comboio, o valor é devolvido. Quanto à lista de espera, pode-se ir verificando o nosso lugar na lista de espera em vários sites no próprio dia e, depois, ter-se a confirmação oficial algumas horas antes na própria estação.

Voltando ao balcão da estação de comboio... As más notícias ainda não acabaram. Quando finalmente se consegue toda a informação sobre a viagem, quando finalmente pensamos que vamos avançar com a compra do bilhete… Dão-nos um papel para preencher com os nossos dados e, depois de preenchido, temos de voltar de novo ao início da fila. Ah Índia Índia, a tua burocracia não deixa de me surpreender. Quanto aos indianos, que já sabem a lenga-lenga toda, fazem trinta-por-uma-linha para passarem à frente de quem lhes apetecer, sem piedade do confuso e ingénuo turista. Após algumas viagens e experiência acumulada, acabamos por fazer o mesmo e lutamos por passar à frente dos que estão ainda na fase de pedir o tal papel para preencher. “Em Roma sê romano…”

 

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3 – Verificar os atrasos na estação. Ponto-prévio: não vale a pena chegar a horas à estação, a não ser que o comboio parta daquela localidade. É certo como a Terra ser redonda que o comboio se vai atrasar, não minutos, mas provavelmente horas. Alguns comboios urbanos podem escapar a esta lógica, mas os comboios intercidades vão chegar definitivamente atrasados. Uma dica: normalmente num canto da estação está um quadro com os horários de chegada previstos, que vai sendo atualizado a caneta ou giz, procurem-no para poderem fazer contas à vida.

Os atrasos sistemáticos implica terem de pensar bem o vosso plano de viagem. Esqueçam a viagem estilo interrail com paragens de poucas horas em cada cidade. A hora que estão a planear sair dela é a hora que vão chegar….

Atenção aos comboios nocturnos. Lembrem-se que se vão apanhar um comboio à meia-noite o mais certo é ele chegar às 4 da manhã, o que pode significar terem de estar algumas horas na estação à noite. Não se preocupem, a Índia é segura inclusive às tantas da madrugada.

Outra dica: descarreguem a aplicação oficial dos comboios indianos e vejam os detalhes da viagem. Normalmente diz logo algo como: “habitualmente 2 horas de atraso” na estação X e isso facilita na gestão das expectativas.

 

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4. Ponderar viajar em Sleeper class (SL). As classes mais “turísticas” são a 1AC (primeira classe com ar condicionado) e 2AC, supostamente as mais confortáveis, mas há um senão, bem conhecido por quem já andou de comboio na Índia: o ar condicionado está sempre demasiado forte. Lá fora estão 40 graus e dentro da carruagem parecem estar -10… É preciso andar de casaco e o mais certo é apanhar-se uma constipação, a última doença que esperariam apanhar na Índia.

Uma alternativa é a Sleeper class, onde vão a maioria dos indianos de classe média, com camas bem mais apertadas, mas com ventoinhas em vez de A/C. Recomendo esta opção apenas para viagens mais curtas, já que dormir é mais desconfortável. A parte boa (ou má, consoante os espécimens) é viajarem com os locais, uma experiência mais autêntica.

A Second Class (2S) dos intercidades é pouco recomendada a turistas. É onde vão a maioria dos indianos com menos posses, normalmente lugares demasiado apertados e em que o único ar é o que vem das janelas sempre abertas. Em viagens curtas, no entanto, pode ser uma experiência para mais tarde recordar.

 

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5. Escolher os lugares junto à janela. Nem sempre vai ser possível, mas não custa tentar. Nas carruagens para dormir há um compartimento com quatro camas. Se viajarem num grupo de quatro, perfeito. Se forem sozinhos ou em casal terão de o dividir com outras pessoas. Se preferem mais privacidade escolham as camas junto à janela. Não só terão mais privacidade como poderão esticar melhor as pernas.

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6. Melhor ainda se for junto à janela de emergência. Nos comboios mais curtos, em que há simplesmente uma classe (às vezes há carruagens só para mulheres), tentem ficar junto a esta janela. É a única que não tem grades, perfeita para se poder fotografar mais à vontade e fazer uma das coisas que mais gosto me dá e que se perdeu nos nossos comboios “ocidentais”: pôr a tola de fora e sentir o ar (e também mosquitos, ramos e afins) na cara. É imensamente libertador, pelo menos para mim.

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7. Sentar junto às portas. Outra forma de sentir o ar, fotografar e ver a vida passar lá fora é sair no compartimento gelado em que estamos, ir até às portas da carruagem, abri-las, sentarmo-nos com os pés de fora e sentir o ar abrasador na cara. Sim, é algo totalmente impensável em países “civilizados” e bastante perigoso, mas dá um gozo tremendo. Sou capaz de ficar ali horas a ver o país passar. Para mim é a melhor parte de andar de comboio na Índia.

 

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8. Comer o que houver no “menu”. “Chai, chai, chai”, “cofi, cofi, cofi”: é isto que vão ouvir todo o santo dia (e noite infelizmente) enquanto cruzam o país de comboio. Os vendedores estão sempre a passar e a gritar, tentando vender os seus produtos. Não, não é como a senhora dos bolos que entra na estação de Alfornelos, isso é para meninos, é mesmo a toda a hora, durante horas, vários deles, muitos mesmo. Dormir pode-se tornar uma tarefa difícil. Se têm um sono leve como eu levem música para ouvir com phones, ou uns tampões em último caso.

Quanto à comida, olhem que não é má… Arrisquem e comam o que houver no “menu”. Normalmente são chamuças e outros fritos picantes com duas fatias de pão dentro de uma caixinha. Quando a fome aperta sabe que nem ginjas e são estupidamente baratas. Nas viagens mais longas servem-se outras refeições dentro de caixinhas, habitualmente caril com vegetais, vegetais com caril, ou caril com caril. É o que há… e é tão bom.

 

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9. Usar as casas-de-banho “indianas”. Ah, as míticas casas-de-banho dos comboios indianos… O que há a dizer? Bom, são exactamente como provavelmente as ouviram descrever: extremamente mal-cheirosas, sujas e apertadas. Há as “indian style”, com um buraco no chão e uma canequinha para… bom, vocês sabem; e as “western style”, cuja única diferença é terem uma “modernice”: uma sanita. Os estreantes vão logo procurar pela do modelo ocidental, mas acreditem, pensem bem antes de o fazer, afinal o que preferem: agachar-se e não tocar em nada ou sentarem-se numa sanita que não é limpa desde a ocupação britânica? Humm…

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10. Acima de tudo, façam as coisas com tempo. Viajar de comboio na Índia em cima da hora e com um plano apertado é o pior que podem fazer. Esqueçam os padrões portugueses/europeus e não contem com pontualidade, limpeza ou conforto. Não planeiem um circuito com uma cidade diferente de 2 em 2 dias. A experiência de andar de comboio na Índia pode ser muito cansativa, se a planearem mal pior ainda. A Índia deve ser vivida com tempo e essa é a mais importante das dicas que posso dar. Boas viagens!



Comentários (3)

  1. Sandra

    Olá, vou viajar de bombaim para Pune. Depois de ler as complicações todas que são para comprar um bilhete de comboio, fiquei um pouco assustada. Vou sozinha e sinto que vou ser engolida pela confusão. Tens alguma dica para me ajudar?

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    • Gabriel

      Olá Sandra. Para além das dicas que coloquei aqui, a minha principal sugestão é: faz tudo com tempo de antecedência, não marques demasiadas viagens em poucos dias, não faças tipo “10 cidades, 2 dias em cada”, pois vais desperdiçar tempo a tratar das viagens. Mas não te assustes, tudo se consegue!

      Responder
  2. Anónimo

    Gabriel,

    Excelente testemunho da tua experiência de viajante. Ideal para quem quer viajar sozinho.

    Saudações,

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