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Liberdade sobre rodas


Quem não sonha fazer uma “road trip” de caravana durante alguns dias? Não me posso queixar da quantidade de experiências diferentes que tenho tido, mas esta foi uma estreia ao volante. No geral digo já que valeu a pena, mas vamos por partes.

A caravana

OK, não era bem uma caravana. Essa pressupõe algo maior e com outros espaços mais amplos. Era uma carrinha, como aquelas da padaria ou das mudanças, mas com duas camas e uma pequena cozinha no lugar de cestos de pão ou mobílias. Há que dizer já: a carrinha tinha muita pinta! Era da IndieCampers, uma empresa portuguesa que aluga vans de várias dimensões e feitios. Apesar de supostamente dar para dois casais, a nossa era perfeita para um casal, mais do que isso só com o espírito certo, de partilha e sem pudor em perder alguma privacidade.

A carrinha não passa despercebida, decorada quase a 100% com autocolantes verdes, qual “mupi” sobre rodas. Na rua, sobretudo nas aldeias, não eram raras as vezes que as pessoas paravam de propósito para a ver.

Foi mais fácil de conduzir do que pensava. O facto de ser moderna ajudou muito – com um dedo virava o volante! Passar em ruelas mais estreitas é que foi um desafio e, pior, fazer marcha-atrás para sair do imbróglio em que me tinha metido ainda pior, já que basicamente não se pode contar com o vidro traseiro. Enfim, são também estas aventuras que fazem uma viagem.

O equipamento

Que não se espere grandes luxos. Não os há, nem são precisos. O que é realmente essencial é fornecido pela IndieCampers: roupa da cama, almofadas, cobertores, loiça e copos, frigideira, panela, um fogão portátil, detergente da loiça e 50 litros de água num reservatório. Algumas coisas alugam-se à parte: sacos-cama, aquecedor, mesa e cadeiras para usar na rua, GPS e até pranchas de surf e bicicletas.

Há luz e tomadas alimentadas por uma bateria extra, que se pode carregar nos parques de caravanismo e campismo.

A nossa “road trip” fez-se ao frio e à chuva, mas a carrinha portou-se surpreendentemente bem. O receio de passar frio à noite acabou por não se confirmar. A chuva é que foi pior. As carrinhas não têm WC (tirando uma gama mais avançada) e esse talvez seja o maior desafio de fazer uma viagem destas no inverno.

À noite o ideal é estacionar num parque de campismo – pagam-se uns 10€, dependendo dos parques, por noite, com electricidade incluída – perto dos balneários.

A experiência

“Então não recomendas fazer no inverno?” Claro que sim! Que não seja um pouco de frio e chuva a demover-nos de arriscar. Sem dúvida que na primavera e verão (quando a maior parte das pessoas aluga caravanas) a experiência tinha sido ainda melhor, mas mesmo com um tempo instável valeu bem a pena.

Há poucas sensações melhores do que pormo-nos à estrada e conduzir para sítios que nunca visitámos, ligar o rádio, abrir a janela, ver a paisagem passar, conversar durante horas e estar calados durante horas, ir parando quando nos apetece ao mínimo motivo de interesse (no meu caso tudo e mais alguma coisa), sair para fotografar, dar pequenas caminhadas, perguntar direcções ao pastor que leva as ovelhas que se atravessam à nossa frente da estrada, dar festas no cão do pastor, ir abastecer de água na fonte da berma da estrada, parar numa tasca e comer uma “diária”, ver o dia passar, encostar a carrinha numa berma no meio de nenhures e contemplar as estrelas, terminar a jornada no dia entre árvores, usar o fogão para cozinhar qualquer coisa rápida, abrir uma garrafa de vinho, sentar lá fora e fazer tempo para ir dormir na cama de serviço (no porta-bagagens portanto!).

Se tiverem sorte ainda vos convidam, como nos convidaram a nós, para entrar dentro da caravana dos vossos “vizinhos”, no nosso caso um grupo de “hippies” franceses e conversar e beber vinho a noite toda, à beira-Douro.

Acorda-se aos primeiros raios de sol, sai-se da carrinha e a paisagem (que não se pôde ver na noite anterior) arrebata-nos de uma forma inesperada. Não há pequeno-almoço marcado, nem hora de check-out, rede de telemóvel, horários a cumprir, trânsito ou transportes para apanhar. São poucas as experiências onde nos sentimos tão livres. Temos o total controlo e isso não tem preço.

Falando de preços…

Aqui entra a grande vantagem de se fazer uma “road trip” no inverno: o aluguer é bem mais barato. Na IndieCampers os preços do aluguer nesta altura rondam os 50-60€ por dia, fora seguro, equipamento extra e gasóleo. Nos meses quentes estes preços vão para o dobro.

O que custa mesmo é o preço exorbitante do gasóleo em Portugal. Até os “pobrezinhos” dos franceses se queixaram de ser caro. Infelizmente as coisas já não são como na minha infância, quando viajar por Portugal não era um luxo. Hoje custa mais ir a Bragança do que apanhar um voo low-cost para quase qualquer ponto da Europa. Dá que pensar…

Em 4 dias gastámos 120€ de gasóleo. Uma nota: o percurso foi longo e por terras altas e exigentes, com uso permanente de mudanças baixas, o que certamente inflacionou o preço final.

O itinerário

A IndieCampers permite que conduzamos as vans em Espanha e França, com a possibilidade de entregar a carrinha nesses países, o que pode ser útil para quem queira regressar de avião, por exemplo.

Com apenas 4 dias disponíveis não nos metemos em tão ambicioso projecto, ficando-nos pelo “vá para fora cá dentro”. Soube mesmo bem uma pequena volta ao interior português. Há anos que queríamos explorar alguns dos nossos cantos mais preciosos e esta foi a oportunidade perfeita.

O percurso-base foi este:

1 – Bobadela (levantamento da carrinha
2 – Abrantes
3 – Idanha-a-Nova
4 – Monsanto
5 – Fundão
6 –  Covilhã
7 –  Castelo Rodrigo
8 – Freixo de Espada à Cinta
9 – Barca D’Alva
10 – Foz Côa
11 – EN222 (Douro)
12 – Régua
13 – Castro Daire
14 – Caramulo
15 – Lisboa

Ficam as fotografias e a certeza de ser uma experiência a repetir.

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