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Considerações sobre tempo, dinheiro e energia


Desde há alguns meses passei a viajar diariamente de transportes públicos e isso teve pelo menos um aspecto positivo: passei a ler muito mais, sobretudos livros de não ficção. “Já não há tempo para ler”, ouve-se amiúde. Todos sabemos que é não é bem assim. Haver tempo há, mas é todo ocupado pela atenção que o manancial de notificações dos nossos ecrãs – cada vez mais presentes, sempre juntos a nós, como partes biónicas do nosso corpo – exigem incessantemente.

Nos últimos anos a minha leitura diária era a da maioria: de notícia em notícia, de swipe em swipe, na diagonal, num processo ininterrupto que muitos descrevem como fear of missing out, um fenómeno da sociedade actual. Quem, como eu, assenta a sua carreira profissional na informação, seja noticiosa seja de outro cariz, arrisca-se a este medo, ao medo de perder a(s) novidade(s), de ficar para trás. Para combatê-lo impus-me um detox digital: apaguei metade das apps do telemóvel, renunciei à constante procura do que se passa no mundo e desactivei as opressivas notificações que teimam em fazer parecer o nosso dia ainda mais ocupado do que ele realmente é.

Agora, cada minuto passado no comboio e no autocarro é dedicado a leituras sem interrupções, de livros que vou comprando ou recuperando do baú e que têm tido um efeito inesperado: às vezes gostava mesmo que as viagens durassem mais tempo. Quem diria. Raios parta o tempo que, infelizmente, passa sempre mais rápido quando fazemos coisas de que gostamos.

Mas vamos aos livros. Nas últimas semanas têm-me feito companhia o Miguel Esteves Cardoso, que dispensa apresentações, e o Paul Theroux, provavelmente o mais conhecido escritor de viagens (apesar de não ser essa a sua única escrita) ainda vivo. Numa altura em que o meu anseio por viajar se aproxima perigosamente de níveis de quase desespero, estes dois autores têm-me feito reflectir sobre as vicissitudes da vida e das coisas que fazem parte dela: tempo, falta dele, dinheiro, falta dele, energia, falta dela, liberdade, falta dela, juventude, falta dela…

Já não sei onde aprendi isto, se calhar até fui eu que inventei, mas vou-me lembrando sempre desta espécie de aritmética amaldiçoada: na vida nunca vamos ter tudo o que queremos, falta sempre um dos três elementos primordiais. Na juventude tempos todo o tempo do mundo e temos energia que sobeje, mas não temos dinheiro para concretizar quase nada do que queremos. Na velhice temos tempo para dar e vender, supostamente algum dinheiro (pelo menos foi o que me venderam), mas pouca energia para fazer aquilo que antecipámos que íamos conseguir. Sobra a vida adulta, a altura das vacas gordas, em que supostamente temos os três elementos em quantidade suficiente: dinheiro, energia e tempo.

Acontece que esta promessa é mesmo isso, uma promessa. Não temos o tempo nem a energia da juventude. Sabemo-lo todos os dias, quando chegamos a casa cansados, sem tempo para nada, sem energia para o que quer que seja senão desligar o cérebro e deixarmo-nos alienar preguiçosamente pelo que passa na televisão. Valha-nos o dinheiro, que compensa a falta dos outros dois. Mas nem o dinheiro cumpre a promessa da vida adulta. Exceptuando quem teve a sorte de nascer em berço de ouro, os outros 90% vivem na ansiedade e no medo do futuro; sentem que o que têm é sempre pouco. E mesmo quem tem a sorte de ter mais dinheiro, o que adianta tê-lo se não há tempo nem energia para o gastar?

É aqui que entra o Miguel Esteves Cardoso, que descreve de forma exímia aquilo que me tem passado pela cabeça:

“As pessoas dizem time is money para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo a fazer ninharias e ser-se indolente. (…) Precisar de menos coisas e de menos dinheiro livra-nos de trabalhar tanto para pagar as dívidas das coisas que compramos”

Este difícil gestão entre tempo e dinheiro leva-me a pensar todos os dias naquilo que faço com o meu tempo. “A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver”. Tão simples e tão verdadeiro. Quanto menos temos menos precisamos de trabalhar e, por conseguinte, mais tempo ganhamos. Mas sabemos que este modelo é difícil de seguir e até chega a ser mal visto. Esforço-me para o conseguir, mas não é fácil fugir ao modelo instituído. E para que quero mais tempo? Simples: para começar, viajar mais. Quero usar o que me resta de juventude, tempo e dinheiro numa das coisas que mais me prazer dá.

Como escreveu Richard Kalliburton, viajante e escritor americano, no seu “The Royal Road to Romance” (1925):

“Juventude. Não há mais nada que valha a pena ter no mundo. E eu tinha juventude, e agora transitória, fugitiva, completa e abundantemente. Todavia, o que ia eu fazer com ela? Certamente não ia desperdiçar o seu ouro na busca vulgar de riquezas e respeitabilidade, e depois lamentar secretamente o preço que tivera pago por esses ideais fúteis. Quem o desejar que fique com essa respeitabilidade – eu queria liberdade, liberdade de me permitir qualquer capricho que me viesse à cabeça, liberdade de procurar nos recantos mais longínquos da Terra o belo, o jubiloso e o romântico”

É esta vontade e coragem de prescindir da vulgaridade das “riquezas” e “respeitabilidade” que invejo. Muitas vezes não consigo colocar-me tão fora do sistema como desejaria, mas tento fazê-lo sempre que possível . Por vezes perguntam-me “como tens tantas férias para viajar?” ou “como consegues pagar as viagens? Deves ter uma grande vida”. As duas partem de pressupostos errados. Tenho as mesmas férias que toda a gente (ou menos) e ganho o mesmo que a média das pessoas. Tem tudo a ver com prioridades.

Há 10 anos que viajo e fotografo, o que me dá um prazer imenso, e há 10 anos que aprendi a sacrificar muitas coisas de modo a conseguir fazê-lo. Visto de fora a vida de um fotógrafo/viajante pode parecer fácil, privilegiada e glamorosa, mas os sacrifícios que são precisos nunca são lembrados. Para a maioria dos viajantes, onde gosto de me incluir, coisas como um bom carro, casa própria, iphones topo de gama, roupa nova de mês a mês e jantares em restaurantes da moda são coisas que acabam por ser sacrificadas em nome da paixão por viajar.

“Mas tens um iphone…”. Sim foi-me dado. “E um belo portátil Mac”. Não é meu, é da empresa, não tenho computador pessoal. “Então e o carro?”. Também não tenho um carro meu, divido um com a minha namorada e vou todos os dias da semana de transportes públicos para o escritório. “Pois, mas moras na Linha de Cascais…”. Sim, num pequeno T2 alugado e que me custa menos do que o T0 que tive quando me mudei para Lisboa. “Playstation?”. Oferecida. “Tablet?”. Também oferecido de tão velho que é. “Ah, tá bem, mas esse material fotográfico todo não é nada barato”. Pois não, compro é tudo em segunda mão e estou sempre a voltar a vendê-lo para me permitir fazer a aquisição seguinte.

Muitos viajantes devem-se reconhecer nestas conversas e sabem que tem tudo a ver com prioridades. No meu caso, quase todos os euros são poupados a pensar em viagens. “O dinheiro que gastei neste casaco dava-me para 3 dias na Ásia…”, “este iphone novo valia-me um voo… “; “esta saída à noite chegava-me para pagar uma noite no Japão…”. Estes são pensamentos que me assaltam, e certamente assaltam muitos dos amantes de viagem, que consideram quase tudo um desperdício de dinheiro sem sentido.

Esta definição de prioridades tem tanto de pragmatismo (tenho de poupar para ir a determinado sítio) como de crença pessoal em valores que considero os melhores para mim. Acho genuinamente que experiências valem mais do que bens materiais. Não trocaria um passeio de canoa em Kerala por nenhum telemóvel, nem a grandiosidade das cascatas islandesas por um computador, muito menos a experiência quase mágica de viver a Amazónia por uma Playstation novinha em folha.

Vou mais longe: acho mesmo que uma vida rodeada de demasiados objectos nos torna pessoas piores. Sobre isto escreve Paul Theroux escreve:

“After a man has made a large amount of money he becomes a bad listener and an impatient tourist”

Quem não conhece algumas pessoas assim? Incapazes de ouvir, de conter nem que seja por um momento apenas o seu insuflado ego, ansioso por falar de si, de si, de si. Porque haveriam de querer entender como vivem pessoas do outro lado do mundo quando nem dispostas estão a conhecer quem vide ao seu lado? Isso implicaria ouvir, receber, aprender, verbos do dicionário de que fogem a sete pés. Turistas impacientes, sem ponta de curiosidade pelo outro. Porque haveriam de senti-la quando estão subjugadas à ditadura do ter e do exibir?

Sobre isto Paul Theroux continua:

“Luxury is the enemy of observation, a costly indulgence that induces such a good feeling that you notice nothing. Luxury spoils and infantilizes you and prevents you from knowing the world. That is its purpose, the reason why luxury cruises and great hotels are full of fatheads who, when they express an opinion, seem as though they are from another planet. It was also my experience that one of the worst aspects of traveling with wealthy people, apart from the fact that the rich never listen, is that they constantly groused about the high cost of living—indeed, the rich usually complained of being poor”

O luxo é inimigo da observação. É por isso que os viajantes mais apaixonados, considero eu, se recusam a ficar em resorts e a embarcar em cruzeiros caros, ambos “tudo incluído”. Pois é, tudo incluído menos o que verdadeiramente interessa numa viagem: o contacto com as populações locais. Sem esse contacto não conseguimos aprender como lidam elas com os problemas diários com que se deparam, nem perceber como reagem perante a adversidade que o seu governo, economia, geografia ou clima lhes impõe, nem entender que, no fundo, em todo o mundo temos as mesmas aspirações, desejos e receios.

O luxo e o conforto cegam-nos. O propósito de viajar é vermos, nem que para isso tenhamos de passar por momentos de maior desconforto. Quem me conhece já está familiarizado com a expressão que uso recorrentemente: a adversidade fortalece o carácter. E fortalece também um viajante, uma experiência, uma viagem. Se assim não for para quê viajar? Se viajarmos para nos sentirmos como em casa para quê sequer sair dela?

Ficam as questões no ar…

Voltando aos transportes públicos. Retomar a leitura fez-me lembrar a forma como gosto e quero estar na vida, tanto quando viajo como no dia-a-dia no escritório, na rua, em casa, onde for. Sempre consciente de que, apesar de inevitavelmente me faltar sempre tempo, dinheiro ou energia, que devo usá-los o mais possível naquilo que mais gosto: ler, viajar, fotografar, escrever, experienciar, viver. Nunca pensei vir a dizer isto, mas… benditos transportes públicos!

P.S.: Não tenho dado novidades sobre as próximas viagens. Depois de uns meses mais parados vêm aí três aventuras por que muito espero: Zanzibar (Julho), Japão, (Setembro/Outubro) e a maior de todas… o casamento com a minha querida Selma. Até já!


Comentários (5)

  1. Esdras Beleza de Noronha

    Por algum tempo ouvi de amigos que eu estava rico por conta das viagens que fazia. Curiosamente, algumas dessas pessoas gastavam com roupas ou carros caros, enquanto eu mantive por seis anos o carro usado que comprei em 2010. Ótimo texto 🙂

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  2. C. B

    Então ca vai o meu comentário!
    Adorei tudo que escreveste!
    Apesar de não concordar muito com os transport públicos. Mas gostos não se discutem , mas temos alguns em comum!
    Como viajar, ler a minha preciosa filha
    CBxx

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