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Bragança ou a vida nos bosques


O título deste texto foi roubado a Henry David Thoreau, à sua obra maior “Walden ou a vida nos bosques”. Ele, tal como eu, cansado da vida de cidade, procurou refúgio no bosque. A diferença é que Thoreau “hibernou” na floresta durante dois anos; já eu foram apenas… quatro dias. Foi pouco, mas o suficiente para fortalecer a minha convicção de que é o bosque o mais bonito tipo de ecossistema que existe. Sempre senti um enorme fascínio pelo bosque, sobretudo quando ele se veste com as cores do outono e da primavera, e esse encantamento tem vindo a aumentar nos últimos anos. Por bosque entenda-se a floresta de vegetação mais, digamos, “nórdica” – castanheiros, carvalhos e cedros, caracterizados por uma grande biodiversidade e beleza ímpar.

Thoreau, escritor americano do século XIX, também amava o bosque e exilou-se num do interior de Massachusetts, junto ao lago Walden, onde se entregou a uma intensa viagem de descoberta pessoal, ao mesmo tempo que procurou compreender melhor a natureza que o rodeava: “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vagarosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo o que não fosse vida”, escreveu Thoreau. Repare-se que estávamos em meados do século XIX, imagine-se se o escritor vivesse rodeado da parafernália de tecnologia do nosso século XXI…

Quanto a mim, planeava alguns dias de refúgio no bosque há algum tempo e concretizei-o finalmente agora, depois de um amável convite da Câmara Municipal de Bragança para visitar o concelho. A última vez que tinha passado por lá foi há já dez anos, por isso parti cheio de entusiasmo para Trás-os-Montes, o “reino maravilhoso” de Miguel Torga. Estive por lá quatro dias e voltei com a certeza de ser uma das mais belas regiões de Portugal.

Dia 1

Quando chegámos a Bragança já a tarde ia longa. Aproveitámos a última hora de sol para fazer um rápido passeio pela cidade. O centro histórico revelou-se mais pequeno do que esperava. E mais calmo. O que não é mau, já que era a conhecida tranquilidade transmontana que vinha à procura.

Apregoaram-me a pujança da vida cultural desta capital de distrito – que não ficava atrás de outras cidades maiores no que diz respeito a espaços e eventos culturais. Infelizmente não tive tempo para o atestar – vim mais a pensar nos bosques – mas confirmei, pelo menos, uma abundância assinalável de espaços museológicos no centro, todos na mesma rua, por isso lhe chamam a “rua dos museus”. Fiquei sobretudo com pena de não encontrar aberto o Centro de Fotografia Georges Dussaud, que alberga uma coleção de retratos a preto-e-branco de Trás-os-Montes deste fotógrafo francês apaixonado por Portugal.

Acabámos o dia no pequeno núcleo intramuros no alto da cidade, morada dos mais conhecidos monumentos de Bragança: o castelo, a igreja de Santa Maria e o Domus Municipalis.

Dia 2

O segundo dia foi todo dedicado ao bosque e à paisagem de altitude de Montesinho. António Sá foi o nosso anfitrião. Fotógrafo e guia turístico, é também um verdadeiro embaixador dos encantos de Trás-os-Montes, que para ele é a região mais bonita de Portugal. Por isso trocou a vida na cidade pelo campo faz já oito anos. Vive agora numa aldeia de 52 habitantes perto de Bragança e relata a mudança para um sítio com mais qualidade de vida no seu blogue, o The Quality Times – o nome diz tudo.

António organizou o nosso passeio através da sua agência, a Bétula Tours (a bétula é uma árvore típica destas latitudes), e mostrou-nos os diferentes tipos de ecossistema que se podem encontrar perto de Bragança. Começámos por explorar um souto (conjunto de castanheiros). Chovia um pouco e havia um nevoeiro rasteiro que cobria o manto de castanhas caídas no solo. Sol nem vê-lo, e ainda bem, o ambiente daquela manhã era perfeito sem ele. A primavera tinha chegado ao resto do país, mas não aqui. Parecia mais um dia típico de outono, e eu adoro o outono.

António falava sobre o souto com mestria, como quem vive ali desde pequeno; eu não conseguia apontar tanta informação fascinante que ouvia, até porque estava a fotografar sem parar, mas registei o facto de alguns daqueles castanheiros terem 400 ou 500 anos – só isso podia justificar aqueles troncos majestosos, com um diâmetro digno de uma sequoia-gigante, troncos vividos e retorcidos, mas com ar de ainda poderem vir a celebrar muitos mais centenários de vida.

À medida que deixávamos o souto, António contava-nos que esta é uma das poucas regiões do país onde ainda predominam as nossas árvores autóctones. Aqui ainda não chegou a invasão de eucaliptos e pinheiros que tanto afecta outras zonas. A somar a isso, e também por isso, a biodiversidade de Trás-os-Montes é riquíssima e não é difícil observar corços, veados, raposas, javalis ou lontras.

Com o intenso desejo de ver pelo menos uma das espécies, seguimos para o Parque Natural de Montesinho. Primeiro parámos por uns minutos num característico lameiro transmontano. Os lameiros são áreas para pasto no meio da floresta, ladeados por “agueiros”, ou seja, canais que transportam água de ribeiros próximos e regam os prados de forma contínua. Junto aos cursos de água reinam outras espécies arbóreas, chamadas ripícolas. Algumas já conhecia, outras nem tanto: choupos, freixos, amieiros, salgueiros. António mostrava quais eram quais. Perceber a diferença entre elas foi uma bênção vinda dos céus, ou melhor, do António, e eu só podia agradecer.

Fui presenteado com outra dádiva vinda diretamente do bosque e que parou no centro de um lameiro: um corço. Estava bastante longe, a olhar para mim, tão interessado em mim como eu nele, eu a querê-lo o mais próximo de mim possível, ele a querer-me o mais longe dele possível. O corço levou a melhor claro, mas aquele fugaz vislumbre foi o suficiente para me animar o dia. Que privilégio vê-lo ali, livre, a tomar o pequeno-almoço naquele incrivelmente verdejante lameiro.

A chuva intensificava-se e a temperatura caía à medida que penetrávamos no Parque Natural de Montesinho (o ponto mais alto da serra chega aos 1486 metros). O bosque adensava-se e entrávamos no território do carvalho, a árvore do bosque por excelência, com os seus ramos cobertos de líquenes, milhões de pequenos filamentos verdes que são uma mistura de fungo e de alga e que cobrem o seu anfitrião, como heras numa casa abandonada. António sugeriu vê-los de mais perto, mas chovia agora com mais força, por isso avançámos para o cimo da serra de Montesinho.

Entrámos noutro planeta, no território da urze, da giesta, da esteva e da carqueja, plantas rasteiras conhecidas por se vestirem a preceito para a primavera, num manto que cobre as montanhas de branco, amarelo e lilás. Hoje é primavera, mas o inverno teima em não ir embora, tanto que começa a nevar, primeiro uns flocos tímidos, depois um repentino nevão com vento à mistura. Apesar do clima ártico, António alicia-nos a sair do carro para sentir a força dos elementos e tirarmos uma fotografias.

É quase comovente sentir toda a sua paixão por esta terra, pelas suas florestas, animais e tradições. Fala de Trás-os-Montes com um entusiasmo contagiante. “When in doubt, get out”, diz-nos com convicção. Naturalmente, acedemos. Saímos do carro e o esforço compensou. Fizemos uma pequena caminhada entre frondosos pinheiros-silvestres, bétulas e cedros, num inesperado cenário alpino. Para o panorama ser perfeito só faltou aparecer por ali um veado, bisbilhotando a fonte de todo aquele entusiasmo no bosque.

 

Dia 3

O dia amanheceu ameno e soalheiro, portanto fomos à procura de ostras do campo. Como assim ostras do campo? Trata-se do nome que Gonçalo Martins dá aos cogumelos e ao seu projeto de produção destes. Visitámos o seu armazém na aldeia de Baçal, que fica perto de Bragança, mas longe o suficiente para podermos logo de seguida ir para o campo a pé à procura das preciosas “ostras”.

Fiquei surpreendido quando Gonçalo me mostrou como produz cogumelos (da espécie pleurotus ostreatus) dentro de um espaço fechado, através de blocos de fardos de palha que têm um composto no interior que funciona como uma espécie de adubo. Com a fórmula e condições certas, acabam por nascer cogumelos nos blocos, que saem dos buracos entretanto criados para o efeito. Em poucas semanas consegue produzir quilos de cogumelos e Gonçalo explica-nos o processo à minúcia. O engenheiro agrónomo fala de cogumelos com notória sabedoria e eu perco-me no meio de dezenas de nomes de espécies em latim. “Vamos à procura deles lá fora?”. Isso é que é falar, vamos lá.

Não foi preciso andar muito para entrarmos no bosque. Dez minutos depois de sairmos do armazém já estávamos à caça de fungos, cesto na mão e olhos de lince à procura deles. A época não é a mais propícia, por isso não foi fácil encontrá-los, mas acabámos por achá-los num lameiro junto a um ribeiro. Eram comestíveis, mas não especialmente bons, por isso deixámo-los na terra. Gonçalo deu-nos alguns da “colheita” do armazém e disse que eram deliciosos. Comêmo-los num risotto dias depois. Confirma-se: tenrinhos e saborosos. Melhor do que ostras, digo eu.

 

 

A tarde foi dedicada a descobrir mais sobre uma nobre arte, quase em vias de extinção: a cutelaria. Na pequena aldeia de Aveleda, não muito longe de Baçal, Gilberto Ferreira está a dar nas vistas por causa das suas navalhas artesanais. Quando me falaram de Gilberto imaginei-o um velho artesão, um ancião cansado após décadas dedicado às facas e desgostoso pelos jovens não lhes seguirem as pisadas. Não podia estar mais enganado. Quando Gilberto me cumprimenta sinto-lhe a mão firme, robusta, calejada do duro ofício, mas, para minha surpresa, olho para um trintão de ar jovial, sorriso nos lábios, sweatshirt amarela de adolescente. “Vamos ver como nasce uma navalha?”. Vamos sim.

Nos Açores tinha visto como se faz uma ferradura; para uma navalha o processo da lâmina é algo semelhante, usando-se uma forja para derreter o aço. Já o cabo pode ter várias formas e feitios, mas também materiais, desde as madeiras mais exóticas a cornos de veado. Depois de vários minutos a moldar o aço, a navalha ainda tinha muito trabalho pela frente, horas fiz-me Gilberto. Não tínhamos horas e só vimos um pouco do processo. Gilberto cria peças únicas, muitas feitas por medida a clientes de todos o país, chegando a ser vendidas por centenas de euros. Podem ser compradas diretamente na oficina em Aveleda ou nas feiras que Gilberto percorre por todo o país. Voltámos a Bragança com uma destas obras de arte, com direito a nome gravado e tudo.

 

Dia 4

No último dia fizemos duas paragens rápidas antes de rumar a Lisboa. Visitámos a mais conhecida aldeia de Trás-os-Montes: Rio de Onor. Conhecida pelo espírito comunitário, infelizmente não conseguimos testemunhá-lo in loco por falta de tempo, ainda para mais a chuva tinha regressado, por isso, com grande pena, seguimos caminho.

Decidimos rumar mais a sul, onde algumas abertas surgiam no horizonte. Parámos junto ao rio Sabor e apreciámos as águas cristalinas. Tinha o secreto desejo de ver uma lontra. Nunca consegui vê-las no meio natural, mas não tive essa sorte. Junto ao rio, caminhámos ao lado de deslumbrantes bosques e encontrámos uma cabana de madeira perdida entre carvalhos, com um pequeno espelho de água aos pés, criado por um açude mais acima.

Era a nossa última paragem e era uma visão arrebatadora, acompanhada por uma banda sonora composta pelo som da água a cair e pelo chilrear dos pássaros. Apeteceu-me ficar ali, um dia inteiro, dois dias, uma semana, um ano. Como Thoreau, deixei-me encantar por este Walden e vi-me a viver ali, naquela cabana de madeira semelhante à que o escritor construiu num bosque de Massachusetts. Quis-me desligar do mundo, sugar toda a medula da vida, vagarosa e espartanamente. Imaginei uma vida passada nos bosques. Não sei, quem sabe um dia. O que sei é que certamente voltarei a Bragança já neste verão.


Contactos

Bétula Tours
Rua N. Sra da Lapa, 27
Lagomar – Bragança
Tel.: 273 326 290 | 960 237 459

Gilberto Ferreira (navalhas artesanais)
Aveleda
Facebook

Gonçalo Martins (ostras do campo)
Baçal
gsamartins@gmail.com

 

Onde dormir
Hotel Tulipa
Casa da Edra (Montesinho)

Onde comer
Casa Nostra
Poças
Taberna do Javali
Casa da Edra (Montesinho)


Comentários (5)

  1. Anónimo

    “Lá naquela rudeza sem conforto, é que sentimos a cama macia, a alma aconchegada! De lá, daqueles agressivos penhascos, é que nos vem ternura e calor.” Miguel Torga

    Uma brigantina de corpo e alma!

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  2. Filipe Morato Gomes

    Então estiveste com o grande António Sá, sim senhor – só pode ter sido um fim de semana maravilhoso! Agora tens de me explicar como é que controlas o São Pedro, para teres essas estações todas concentradas :)) Parabéns pelas fotos. Grande abraço e até breve.

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